Meu fiel companheiro

Há um sofrimento que permeia todas as camadas da minha realidade, que enrola seu tecido e dá nós, muitos nós, impedindo que se possa tentar dele fugir, impedindo que se possa ver um mundo onde ele não seja o maior de todos os sentimentos, onde não seja o único contínuo.

Merda! Essa é a palavra que define a vida, atitudes, pensamentos e decisões de um deprimido. E não adianta tentar fugir, pois até na tentativa está lá o pontecial para transformar tudo em merda aguardando para se apresentar com todo seu brilho, um brilho extremo, tão intenso que impede a percepção de outros potenciais. Merda é sempre o resultado.

E então o corpo falha. O deprimido não dorme para fugir, dorme porque corpo e alma não aguentam. Jamais fugiria para um lugar de maior sofrimento.

É… os sonhos de um deprimido também são cheios de merda, até muito mais que no mundo acordado. Basta fechar os olhos para que todo o sofrimento se amplifique. Sua própria mente, que sempre lutou contra você mesmo, agora tem toda a sua atenção.

Se já tive um sonho bom? Sim… talvez tenha sido o único, uma lembrança que me resta da infância. Mas, mesmo assim, acabava em merda. Nesse sonho eu podia voar. Era tudo o que eu precisava para finalmente fugir desse mundo, mas obviamente não dava. Voei por todo o mundo buscando um lugar onde eu pudesse não sofrer, mas não encontrei, pois o sofrimento está do lado de dentro. Não tendo encontrado esse lugar, resolvi fugir, voando para o espaço, mas havia um domo transparente no planeta, onde o céu era pintado, onde bati com muita força e comecei a cair de volta… não para a morte, que seria um alívio, mas para meu próprio corpo, naquele instante finalmente acordado e com a mente suficientemente desperta para do sonho lembrar e aumentar o sofrimento.

Mas vida segue. E a luta não acaba enquanto acaba com a mente. Um choro na noite, uma dor no peito, um sussurro do medo, de tudo e todos, te dizendo que é melhor se encolher e se esconder, uma vergonha aos olhares que sempre julgam. E ainda nem amanheceu.

Mas preciso ser forte, me mostrar forte, enganar aos outros mostrando que sou normal, que dou risadas e que entendo as piadas, que tenho objetivos e que sou capaz de algo. A morte é lenta e dolorosa. Talvez por isso tantos desistam. Mas sou espírita e isso complica tudo um pouco mais, pois tenho uma quase certeza de que o sofrimento permanecerá caso eu também desista. E… novamente… nem adianta tentar, pois o resultado é sempre o mesmo: merda. Pois até na própria morte vejo seu potencial.

De falha em falha, sigo falhando. Auto-flagelo, auto-sabotagem. Nem mesmo é possível tentar evitar. Para onde quer que eu vá, para onde quer que eu olhe, está lá meu fiel companheiro esperando para me abraçar.

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Jumentos e montadores

Vou tentar explicar para quem não entendeu: selecionamos nossos ídolos pelas qualidades que nos impressionam, por terem, serem ou representarem algo que desejamos. Essa seleção é empática, portanto amplamente dependente da (ou de distúrbios da) auto-imagem.

Dalai Lama é ídolo de humanistas e espiritualistas, Muhammad Ali de pugilistas e Kasparov de enxadristas. Quando pensamos em inteligência, vemos em Einstein, Copérnico, Tesla, Pascal ou Sócrates o exemplo. Quando pensamos em poder e influência, lembramos de Alexandre, Mao Tsé-Tung, Cleópatra ou Gengis Khan.

Quando escolhemos, como líder, um cientista, é porque temos a ciência como objetivo. Se escolhemos um esportista, estamos, muito provavelmente, pensando em saúde e boa forma.

Quem somos e o que pensamos quando escolhemos alguém que mente descaradamente, ignora as opiniões divergentes, foge de discussões, determina-se a resolver assuntos com violência (física ou verbal), toma decisões espalhafatosamente desastradas e infundadas e “volta atrás” da própria palavra?

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