R$1,00

Outro dia comentei com um amigo que há um tempo atrás encontrei uma nota de um real. Estava pensando nela e me lembrei que ela foi, inclusive, aceita no boteco. Daí então veio uma lembrança do início da adolescência.

Lembra da chegada do plano real? Eu lembro bem. Lembro que em casa havia uma lista de deveres semanais que, se cumpridos, garantiriam uma linda e nova nota de um real. “Se cumpridos” significa que para mim não rolava. Mas quando esse um real pingava na mão… sabe o que dava para fazer com ele? Tem noção do que um adolescente novato podia fazer com um real?

Pense comigo na indecisão que se instalava. Comprava vinte (Sim! 20!) pacotes de figurinha, cinquenta (leu certo) chicletes, três chocolates ou quatro sorvetes? Como sempre fui nerd, ainda se somava a isso a vontade de juntar para comprar disquetes e dar uma chegada numa lojinha perto do Hospital São Paulo onde O CARA, por preços realmente camaradas, fornecia a pirataria (levando os próprios disquetes era mais barato).

Para que computador iria essa pirataria? Um nervoso! Um cobiçadíssimo 80486DX4 100MHz com estonteantes 8MB de RAM e 540MB de HD, com um monitor Samsung SyncMaster 3, suficientemente poderoso para entregar uma resolução de 1024×768, alimentado pelas maravilhas resultantes de uma Cirrus Logic (não me lembro o modelo, mas lembro que era num slot VESA e tinha 1MB de RAM) capaz de entregar uma gama de 16-BIT de cores (65535, para ser mais preciso). Infelizmente, porém, não possuía o ainda mais cobiçado Kit Multimídia.

Aliás, 540MB de HD era algo sinistro. Nele tinha uma partição DOS gigante, onde estava o próprio (Caldera DR DOS 6.0) e tinha instalado o Windows 3.11 e o Slackware Linux 1.1.2 (carregado via loadlin.exe… quem lembra disso bate o pé). E como todo bom nerd, estava carregado de coisas como dBase, Clipper (com o linker da Borland e Clipper Tools ;-), Turbo Pascal, Borland C++ e GCC.

Voltando ao dinheiro. Também ficava a dúvida se era mais vantajoso gastar em pastel e caldo de cana. Aliás, ambos juntos custavam trinta e cinco centavos… TRINTA E CINCO CENTAVOS! Dava para comer três pastéis, tomar um caldo de cana grande e ainda comprar umas balas. Ou, ainda, podia ir até os arredores da Estação Ana Rosa, o que muitas vezes acontecia, para pagar ainda menos em tudo o quanto é tranqueira degustável que se imagina. Os camelôs de lá eram sempre os mais baratos… amados, portanto.

Um tempo depois dessa fase, comecei a trabalhar. Ganhava R$300,00 (trezentão, mano!) por mês, um valor que hoje parece uma piada, mas compare esse valor ao de um Escort Hobby 1.0 que custava, apenas dois anos antes, 621 (ou 631, agora não lembro corretamente) URV. Se ainda assim parece pouco, anos depois fui um estagiário bem remunerado (para os padrões da época) que ganhava R$240,00 (mais de duzentão, mano) por mês… era mais (bem mais) que um salário mínimo (R$180,00 naquela época, se não me falha e memória).

Também comecei a fumar… coisa de gente idiota, eu sei. Com um real eu podia comprar seis maços de L&M e 4 chicletes no camelô ao lado do trabalho. Lembra quando a esfiha do Habib’s custava R$0,15 (mesmo preço do cigarro do camelô)? Eu também aproveitava. Em alguns lugares, ainda, podíamos encontrar pizzas por R$2,95… as boas eram mais caras… tipo R$4,40.

Sei… parece que estou defendendo o Plano Real. Mas não estou, não quero essa briga pro meu lado. Mas, caso não tenha ficado explícito, consegue perceber que independentemente da moeda que esteja em circulação, desconsiderando as severidades financeiras que se abateu sobre cada uma delas, quem faz as cagadas somos nós mesmos?

O Plano Real foi muito além do simples corte de zeros à direita como anteriormente fazíamos. E funcionou, ao menos inicialmente. Era uma nova experiência, era arriscado, mas era muito bem planejado. Sabe aquele computador que citei lá em cima? Custou R$4.880,00… custava mais que um carro importado, mas era pagável… tinha como… e para isso não faltava comida à mesa.

Mas, então, não conseguimos suportar o sufocamento de nossa doutrina que nos impõe a adoção de ideologias e símbolos políticos para a formação de uma guerra interna pouco silenciosa. Temos o péssimo costume de idolatrar pessoas que fazem poses e vomitam frases de impacto para ganhar nossos votos e nos manipular. E essas pessoas, inclusive os próprios autores do plano, aproveitaram.

Vou finalizar de uma forma até óbvia, mas precisa ser reforçado.

Brasileiro é burro! Age como se democracia fosse uma situação e não entende que é uma ferramenta. Acredita que existe uma “elite política” que domina toda a situação mas não se toca que foi ele próprio quem colocou o infeliz no palanque. Elege chapa achando que vice não governa, elege símbolo acreditando que tem total poder sobre alguma coisa, acredita em discursos pagos e se emociona com encenações óbvias.

O Brasileiro percebe que a “classe política” está podre e se desvia da culpa dizendo “não me representa”. Ora! Vai tomar no centro do furículo! Nossos políticos são “nós”. Se entre eles quase não há quem presta é porquê quase não há quem presta para ser candidato… Matemática extremamente simples.

A cada iteração, nossa qualidade de vida segue rumo ao fundo do poço. Mas aceitar que a culpa é nossa… de todos (somos uma sociedade)… parece mais absurdo que ser condenado por estupro de menor incapaz. Não é difícil entender que:

  1. o poder não transforma a pessoa, a revela – índole não é algo simplesmente mutável e educação tem papel central na formação do indivíduo;
  2. o infeliz que está na palanque e que busca vantagens somente está lá porque um bando de brasileiro burro simpatizou com suas mentiras (afinal… a mentira é o principal vértice de uma conversa no melhor estilo brasileiro, fantasioso por natureza e ignorância) e não teve raciocínio lógico suficiente para “separar as coisas”;
  3. se, num cesto com mais de 300 laranjas somente existir meia dúzia de laranjas boas, dificilmente será selecionada uma laranja boa enquanto tentamos escolhê-las de olhos vendados e
  4. duzentas milhões de formigas são muito mais poderosas que algumas centenas de besouros… só que as formigas são espertas e organizadas.

Então pergunto: vai votar em quem? Decidiu ou escolheu?

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O egresso da caligem

Não é novidade que ao longo de muitos anos sofri, nem sempre calado, com uma depressão que lentamente desfeava minha personalidade e me tolhia atitudes quaisquer não relacionadas a composição de fragmentos textuais obscuros e confusos.

Nunca me senti suficientemente confortável com a ideia de ingestão de sujidades medicamentosas a desvanecer partes, embora pestilentas, de minha personalidade, pois trata-se de minha “caixa de ferramentas”… minha identidade. Mas, assim como toda vida finda, o mal também desvanece. E como é maravilhosa a vontade de chorar causada por uma percepção de vontade.

Sim! Vontade! A brevemente escassa e longamente minguada vontade qualquer de se fazer coisa qualquer num instante qualquer. Devo confessar que chorei ao me sentir abrindo uma janela para que o brilho de um dia ensolarado entrasse em minha fortaleza.

A escuridão agora está na memória, guardada para ser consultada sem que me embargue a razão.

Não se trata de sentir-se feliz. Trata-se de não sentir somente medo, vergonha, raiva e confusão. Trata-se de acordar e levantar da cama, de voltar a apreciar os próprios gostos, de permitir-se instantes de genuína alegria sem a sabotagem da razão adoecida. Trata-se de sentir-se plenamente humano novamente, iluminado como todos devem ser.

Quero xingar o mau agouro, esbofetear a inanição e sei que agora posso fazê-los com um sorriso estampado no rosto e uma calma que me oferta a própria vida. Quero viver novamente! O egresso da caligem é a revinda do regojizo!

E longe do entorpecimento resultante dos fármacos, poderosos e devastadores, retomo meu ser com a alegria que me faltava. Meu dia brilhou porque o fiz brilhar. O Sol retorna ao Leste.

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