Coma

Certa vez, num bate-papo com Vilirato, amigo próximo e de nome incomum, um médico viajante do tempo que conseguiu tal feito adaptando um fusca após adotar idéias de um clássico dos cinemas, pude observar, pela primeira vez desde que nos conhecemos, uma certa quantidade de lágrimas escorrendo de seus olhos enquanto me relatava um caso envolvendo três pacientes.

Após uma extenuante jornada de trabalho, chega, acompanhada de uma multidão e de muitos policiais, uma ambulância daquelas bem antigas, como as que temos hoje. Imediatamente começou a gritaria do lado de fora e a correria do lado de dentro. Todos juntos estavam perdidos e sem saber o que fazer, mas Vilirato, como todo bom curioso, resolveu questionar os policiais, aproveitando seu tempo livre, após o término do plantão, para tentar compreender melhor o caso e oferecer ajuda, caso possível, adequada.

Eram três pacientes, simultaneamente vítimas e criminosas, que se enfrentaram diante de todos por um longo período. Tudo o que estava por perto virava arma. A demonstração de violência, de acordo com os próprios policiais foi extrema. Cada uma das três pacientes apresentava danos irreversíveis, deixando a impressão de que nada mais havia de ser feito.

Pareceria uma enorme ironia se Hope (Esperança, em inglês) fosse apenas o nome de uma delas. Mas, assim como no caso das outras duas pacientes, Tajunta (Consciência, em finlandês) e Sota (Guerra, também em finlandês), não era apenas um nome… estávamos muito além disso e das coincidências, estávamos representando nossa própria história, revivendo-a numa realidade paralela restrita às dependências de um hospital. E da mesma forma seria tudo o que estava a decorrer.

Hope, embora apresentasse um dos piores quadros possíveis resultantes de agressões, vindo a deixar sequelas devido ao grande número de pancadas na cabeça, rapidamente recuperou-se e após pequenas cirurgias corretivas em seu rosto, para o espanto de todos, já estava apta a receber alta.

Tajunta já era conhecida das equipes e possuía uma saúde muito debilitada em decorrência de uma depressão maior, resultado de anos de abusos. As fortes pancadas que levou a deixaram num coma, com raríssimos sinais de possível melhora, durante muitos anos. Graves sequelas ficaram como resultado e Tajunta ainda tenta recuperar seus movimentos.

Sota, a agressora inicial, conforme os relatos das testemunhas, também recuperou-se rapidamente e não houve sequela. Foi observada e relatada às autoridades uma enorme instabilidade emocional, aparentemente um transtorno de personalidade “borderline” ligado a um notável embotamento com limitações severas em suas capacidades cognitivas. Devido a seu quadro clínico permanente, Sota não foi penalizada com reclusão ou detenção.

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Mutans

Quando acordar e abrir os olhos, verá que não é o único tolo, que naquele buraco há incontáveis e que todos compartilhavam um mesmo sonho. Verá que toda a luta não trouxe frutos que não fossem podres e que a impulsividade quase cegou. Perceberá que nada vê além do que está imediatamente a frente e que as palavras que entende não são de sabedoria. Perceberá que se perdeu e que ainda muito há de ser feito apenas para entender onde chegou.

Caminhará com pés descalços entre brasas e espinhos, enfrentará monstros e demônios sem ter armas, pois com estas não se faz algum bem, se perderá entre infinitos argumentos num monólogo infindável e despertará a consciência de que nunca esteve consciente.

Desmantelará as próprias crenças, questionará os próprios atos e se duvidará enquanto gradualmente se desconstrói. Se desfará entre epifanias e o entendimento de que não é quem acreditou ser. E deixará de ser.

Se refará dos cacos restantes, pequenas ideias envoltas em dúvidas que não se esclarecem. Acreditará estar diferente e ter se desenvolvido. Sentirá a mudança e deslumbrará uma diferente compreensibilidade até perceber que nada mudou.

E então a transformação começará.

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Quando nossos erros dão certo

Nossos jovens estão abrindo mão de se desenvolver e fazer o que gostam para poder trabalhar com algo que “dá dinheiro”. Deveríamos estar profundamente envergonhados e angustiados… e os motivos são vários.

Eles querem comprar smartphones, laptops, viajar para a Disney, conhecer o Camboja, experimentar cervejas diferentes, possuir roupas de marcas e um monte de outras coisas que você (ou nós), que teve o prazer de poder fazer, hoje define como supérfluas ou luxos desnecessários. Eles querem viver o consumismo desenfreado e o capitalismo canibal que você (ou nós) criou enquanto você (ou nós) os repudia por possuírem mentes fracas que se afundam no consumismo em que você mesmo (ou nós) se afundou enquanto os mantinha “na linha”, pois essa é a única opção que você (ou nós) conheceu… por puro medo de tentar ser diferente do resto de uma sociedade na qual você mesmo (ou nós) já não acreditava há muito tempo.

Eles estão aplicando a mesma fórmula que você (ou nós) aplicou no passado: fazer algo que gosta, por hobby, enquanto trabalha com algo que “dá dinheiro”.

Só posso dizer: parabéns!!!

Hoje nosso mercado é amplamente incompetente e conservador porque você (ou nós) sustenta a ilusão de que um hobby pode ser sustentado por um salário oriundo de uma atividade na qual você (ou nós) não se desenvolve adequadamente por pura falta de interesse. O importante é ganhar dinheiro para, quem sabe, ser consumido no tempo livre que talvez exista se todas as contas estiverem pagas. E não… não estarão.

Demos aos nossos jovens a falsa sensação de que poderiam escolher profissões nas quais conseguiriam se desenvolver por terem escolhido o que gostam de fazer. Como incentivo, os deixamos sem dinheiro para que possam pagar seus próprios almoços com empréstimos bancários e a possibilidade de passarem a maior parte de suas vidas pagando por uma única viagem de cinco dias, ainda financeiramente limitada, a algum lugar que você (ou nós) costuma visitar por ser uma opção economicamente mais viável.

Determinamos as opções do que eles podem escolher baseados em nossas próprias opções que foram impostas por um mercado de consumo irracional que não somente construímos, como sustentamos e empurramos goela abaixo de qualquer um que em nossa frente apareça. Consideramos loucos, burros, “cri cri”, folgados, doentes, mal educados e mimados todos aqueles que percebem que isso tudo é uma enorme perda de tempo mas que tiveram a coragem de dizer ao invés de simplesmente se adequar, como fizemos.

Com muito esforço e insistência no erro, ainda, conseguimos calar todas essas vozes. Pegamos nossa única verdadeira esperança para o futuro e a transformamos na mesma merda em que nos afundamos cada vez mais ao passar do tempo. Nos convencemos de que devemos abrir mão de nossas vidas para sustentar sonhos que tomamos por assalto e decidimos que devemos impor aos jovens a nossa própria desgraça acumulada, assim conseguimos sustentar a única coisa que conhecemos: uma vida de merda e sem utilidade.

Tudo isso, porém, nos garante profunda alegria ao vermos números que indicam aumentos em suicídios, violência, transgressões e crimes, pois podemos encher nossos peitos e proferir as geniosas palavras “a juventude de hoje está perdida” enquanto nos sentimos os reis de toda essa merda. Nos custa entender que o cheiro ruim vem de nossas próprias fezes.

Sim! A juventude está perdida assim como você (ou nós) também está! E forçar toda uma juventude a estar em acordo com nossos princípios falhos é o maior erro que podemos cometer, pois faremos com que nossos jovens sejam iguais a nós mesmos… uns merdas cheios de si.

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Lados

(Aviso: algumas pessoas me contataram com argumentos que direcionam esse post ao “misticismo”, porém trata-se de um exercício de abstração lógica e visualização… extremamente leviano e generalista, inclusive.)

Lembro-me que em meu antigo blog (mente de mente) acabei, tomado por uma necessidade que não sei explicar, fazendo algumas previsões para o período entre os anos 2015 e 2018, inclusos. De uma delas, por ter sido assustadora e marcante, ainda me lembro das vívidas visões: muitas pessoas sendo assassinadas a facadas (grandes facões), especialmente mulheres e crianças, por fundamentalistas (Boko Haram).

Não me recordo de todo o texto, nem mesmo sei se ainda dele tenho cópia, mas lembro de ter visto, para próximo ao fim desse período, uma grande erupção vulcânica que servirá de marco histórico (como se pudéssemos olhar a História de cima) para muitos acontecimentos. Não sei dizer, agora, se era uma visão vívida de uma erupção real (acredito que sim) ou se era somente uma metáfora.

No caso de uma metáfora, estaria ligada diretamente a mensagem que tentei passar de que algo muito sombrio estaria se formando ou ganhando força entre 2015 e 2018, tanto em nossas mentes quanto em nossas ações, levando toda a sociedade a uma época de discórdia quase generalizada e resultando no início de um novo ciclo que pouco do que há por vir consigo entender, pois tudo o que posso ver se torna muito confuso, exceto pelo fato de termos uma humanidade vergonhosamente dividida e violenta.

Por algum motivo que desconheço, vejo muito sofrimento acompanhado de ascensão espiritual. O sentimento que tenho é o de que a grande maioria de nós deverá enfrentar um período de muita dor e profundo sofrimento enquanto muitos outros, que passaram esse período (2015 a 2018) tentando nos guiar para uma ascensão espiritual simplesmente nos deixarão para trás, provavelmente cansados e sem escolha.

Nesse período, vi ganhar muita força um movimento índigo que já começou a perder seu fôlego e desmantelar, especialmente devido a maior ascensão do charlatanismo que já pude imaginar. Virou folclore e agora todos os que acabam conhecendo o termo “índigo” se auto-intitulam ao bel-prazer, levando a uma dissolução do movimento que se formou por descrença dos próprios índigos.

Ainda continuo vendo uma guerra, que citei no mente de mente, que não envolve nações (embora uma dessas esteja por vir em breve)… uma guerra das pessoas contra elas mesmas, como se nossa realidade fora um vaso de vidro trincado finalmente se despedaçando.

Outra coisa que me lembro de ter visto: contrariando expectativas, tomaríamos o caminho contrário nas ciências e viveríamos uma involução quase generalizada ao passo que distintos grupos de pessoas passariam a desenvolver brinquedos tecnológicos visando uma completa transformação do que hoje conhecemos como Ser Humano. E então vieram a Terra Plana, o anti-intelectualismo, as experiências com o CRISPR/Cas9 e as pesquisas com interfaces que visam conectar nossos cérebros a redes neurais de inteligência artificial. Agora recriamos partes de nossos corpos em impressoras 3D e sabemos como reprogramar nossas células, conhecimento e tecnologia que se tornaram amplamente disponíveis para que comecemos nossas aventuras com as tentativas de não sermos mais simplesmente humanos, ou sermos “algo mais”… da forma mais errada possível.

O que esperarmos, então, de um ano em que acredito que os extremos serão ainda mais acentuados? Veremos tanto o pior quanto o mais belo lado da humanidade. Melhor escolhermos um “lado” antes que o “lado” que não queremos nos escolha.

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