Heteroscedasticidade

O ano nem acabou, mas o próximo já começou. Do que nele podia nos aguardar, nem tudo aguardou. Se o ano foi ruim, talvez você não tenha entendido ou selecionou algo distópico para ter algo em que acreditar. O que muitos aguardavam apenas começou.

Será melhor e pior, na mais incrível dualidade. Tudo depende do verbo aplicado ao que se vê, ouve e sente. Profecias se cumprirão, profecias passarão e estaremos aqui como testemunhas de tudo aquilo que escolhermos para nos apegar ou então o que Deus dará.

Apocalipse projetado! Verdades ofertadas em doses homeopáticas lentamente nos cansam de nossos remédios. Cabeças cheias dormem menos que vazias. Percebem menos, também. Informações divergentes causam estafa. Encurralados ficamos pelos nossos próprios dizeres que não se traduzem em feitos.

O mal tem nova cor e não pecar se torna um novo pecado. Sacrilégio é a transcrição da dor enraizada por permissão e ofuscada pelo brilho esperado nos olhos do sofrido. Mas o ano, corrido, é menor que qualquer ínfimo desejo. O ano que segue é resultado do resultado que somos do anterior.

Se não machuca, deveria. Há de cicatrizar e se esvair a dor em dependência direta de permissão de decorrência. Há de se ver que ao doente cabe a cura.

O dinheiro aplicado no péssimo negócio retorna em forma de péssimo resultado. O desconhecido se revela árbitro entre pobre rico e rico pobre numa guerra de blocos e correntes. Os sonhos de uns se despedaçam enquanto os de outros se realizam, todos em meio a especulação, esperança e desgraça.

O mau senhor se tornará muitos senhores. O sombrio do homem assombrará enquanto a luz de muitos outros senhores permeará lentamente a História subjacente. E o planeta gritará.

Águas, calores, tremores. Nada além do normal acontecendo de forma anormal. Vidas indo, vidas vindo… muitas vidas. É o começo do fim sobreposto pelo fim do começo. É o começo e é o fim.

O mundo mudou.

Padrão

Ponto de vista

Você se lembra do primeiro beijo? Dizem que dele jamais esquecemos e todos parecem confirmar, mas eu não me lembro. O que me lembro é de todo o instante precedente em que a euforia e a tempestade de sensações foram tão intensas que o que viria depois acabaria em segundo plano, nem mesmo sendo registrado na memória. Para mim, o instante que precede algo, o ápice da motivação, o desenrolar das circunstâncias, é muito mais importante do que o algo resultante, pois o resultado é imagem de uma função. Me concentro na função, do contrário me restariam somente domínio e contradomínio.

Um ponto de vista pode ser algo amplamente confuso, incompreensível ou simplesmente comum, como aquele diretamente influenciado e limitado pelo senso comum, uma balisa social, um truque mental pregado contra nós mesmos quando em desacordo com a veracidade, um convite ao erro. Um ponto de vista é, geralmente, emprestado para facilitar que se siga os caminhos traçados pelos vieses durante uma argumentação, mas é geralmente escondido quando em desacordo com o senso comum… um convite a sustentação do erro.

O mundo que é apresentado para cada ser é único, sendo percebido e compreendido de formas diferentes. Pela lógica, é estatisticamente implausível a existência de conjuntos idênticos de pontos de vista senão por efeito de concordâncias resultantes da formação de grupos nos quais se desenvolvam discussões ou imposições ideológicas. A vivência dessa dualidade nos torna suscetíveis a paralaxes cognitivas, tendo em vista a óbvia importância da formação de grupos no desenvolvimento social que sobrepuja a individualidade do ser.

Tais paralaxes não podem, porém, ser apresentadas, senão sob a forma de argumentos “condimentados” ou expressões artísticas, sem prejuízo ao juízo alheio. Com efeito do tempo, a pluralidade suplanta a individualidade não gozada. Com efeito do tempo, um ponto de vista não cultivado cede a ideologias.

Padrão

Hoje o Sol não brilha

Pessoas enlatadas circulam pelas ruas enquanto o Sol se esconde do barulho da cidade. Hoje ele não brilha.

O dia é feio, mas não por causa do Sol em seu momento de introspecção, pois as nuvens estão lá para nos trazer chuva que seja, espero, suficiente para lavar nossa sujeira. O dia é feio porque novamente parece que todos acordamos apenas para consumi-lo, sem nada verdadeiramente útil fazermos, sem realmente vivermos.

Temos uma programação, uma agenda para cumprir. Se livres estivéssemos nesse período, provavelmente travaríamos… nem saberíamos o que fazer e quase certamente escolheríamos algo inútil, como apodrecer mais um pouco em frente a televisão ou desperdiçar vida comendo hambúrgueres. Mas como não estamos, pois trabalhamos por obrigação auto-imposta, ou simplesmente ideologicamente aceita, para que possamos ganhar tapas nas costas enquanto alguém diz que somos batalhadores, nos matamos, lenta e dolorosamente.

Mas está tudo bem, afinal nos disseram que somos batalhadores, pois lutamos para sustentar nossas famílias enquanto sonhamos com uma liberdade utópica que se apresenta diante de nossos olhos, a apenas um passo de distância, sem desistirmos. Somos fortes! E muito mais ignorantes.

Não venha me dizer, porém, que é vítima. Talvez sua desgraça carregue a culpa de alguém, mas é dolo seu. Sua vida também não é simples produto de erros e acertos, é resultado de seu entendimento e de suas concepções, é a imagem de suas ideias.

Hoje o Sol não brilha porque você não o fez brilhar.

Padrão

Somos

Lembro-me de uma vida solitária, maldita, de milhares de anos preso numa sala. O desejo de fugir da solidão era suprido por um aparelho similar ao celular – energizado por uma microestrutura de grafeno capaz de induzir um loop quântico por tempo indeterminado – carregado de músicas antigas e alimentado pelo fato de poucos de nós ainda estarmos vivos, devido a bem sucedidas experiências de reprogramação genética que nos permitiram uma virtual imortalidade.

Maravilhas tecnológicas obtivemos, porém lá fora o mundo era diferente, abandonado, novamente evacuado após o termos destruído, mais uma vez, quase em sua totalidade. Os que lá espreitavam eram os dissidentes e seres que vieram para consumir e eliminar toda a forma de vida restante, não evacuada, para reconfigurar e novamente terraformar o planeta.

Vi, ao longo de incalculável – por ser recorrente – tempo, a vida ressurgir, evoluir e se desenvolver até que aqui estivéssemos novamente presentes para recriarmos nossa própria história enquanto cometíamos os mesmos erros, criando e destruindo as mesmas estruturas sociais, atingido a ápice do conhecimento e desenvolvimento científico e sequentemente decaindo as trevas da mais profunda ignorância. E agora nos vejo novamente.

Vi, diversas vezes, a humanidade dividida, se distribuindo em grupos de intolerância e se tornando exponencialmente agressiva e ignorante. Vi grupos entenderem que somos somente uma simulação recorrente, mas vi poucos realmente sendo capazes de despertar. Chorei até que as lágrimas secassem, mas não mais o faço, pois sei que ainda engatinhamos e que o faremos novamente.

Também vi a humanidade triunfar inúmeras, as vezes repetidas, vezes, para posteriormente seguir o fatídico destino recorrente. Já fomos longe, exploramos e mapeamos nosso universo e conhecemos outros demais, criamos nossas próprias simulações numa busca frenética pelo autoconhecimento, mas nunca nos exploramos em completude, pois ininterruptamente nos desenvolvemos. Nunca, também, fomos completamente capazes de compreender as nossas origens e nossa relação com toda a existência que nos torna uno. E novamente não seremos, mas aqui viveremos novamente para que mais outra vez tentemos.

Aprendi que somos fortes quando compreendemos a unidade, mas insignificantes quando competimos. Também somos muito mais persistentes e inteligentes do que acreditamos, mas somente poucas vezes pudemos ascender a consciência una e conhecer o todo do nosso potencial, pois essa é a nossa natureza, somos nossos próprios criadores e podemos nos transformar para viver diferentes experiências… e são as menos prazeirosas que nos ensinam novos valores e nos abrem caminho para mais profundos conhecimentos a respeito de nós mesmos.

Vi, também, os sorrisos de todos, as alegrias e as tristezas, as conquistas e o constante medo da derrota. Vi quando todos éramos somente um, quando éramos cada um e até quando fomos nenhum. Vi todos os nossos atos, desejos, pensamentos, medos, sucessos e insucessos, mas pude ver que existe apenas uma característica comum a tudo e todos: o amor, muitas vezes reprimido, que sentimos por nós mesmos e que nos faz continuar sempre em busca de nossa total união para que possamos nos recriar, retornar e viver e sentir tudo isso novamente.

Somos perfeitos e somente não sabemos disso pois somos, simultaneamente, imperfeitos. Somos o amor que existe em nós mesmos, o tempo que nos constrói enquanto reconstruímos o tempo, somos nosso próprio destino, pois nosso destino é sermos, cada vez mais, nós mesmos, reconstruídos, cada vez mais belos, perfeitos e imperfeitos, um só enquanto muitos. Não somos somente humanos, somos a própria vida, una, presente em tudo, somos os bichos, as árvores e as paredes, somos o tempo, somos o próprio universo se conhecendo. Somos o tudo e o nada e sempre seremos.

Padrão