Silêncio

Quando aquieta a mente é que se encontra a origem de todo o barulho. É lá, no silêncio, onde nascem os motivos e os conflitos. É lá, também, onde se encontra a si próprio… dormindo descoberto no frio de um mundo apagado pelo esquecimento, como um corpo abandonado num quarto escuro e úmido.

Mas não há corpo! Ou, caso houvesse, seria somente um casulo para uma mente que se aprisiona a uma única ideia de realidade.

Viu um corpo? Vestido? Nu? Masculino? Feminino? Jovem? Velho?

Quanto de você é realmente você? E quanto é mera materialização das palavras alheias? Não sou eu quem pode responder, apenas sei que te fiz imaginar um corpo que diz muito sobre você. Afinal, é você, somente você, a origem dos pensamentos que deram forma a uma ideia de corpo e das sensações que ele enfrenta. É?

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Renascimento

Já pisei nessa terra,
Já vivi por aqui,
Noutra vida, outro tempo
E depois renasci.

Já vivi numa guerra,
Já pensei em fugir
E em olhar desatento
Vi o amor refletir.

Me perdi, me encontrei,
Te abracei, te segui.
Se morri, eu voltei
Para ver-te feliz.

E agora entendo,
Não fui eu, não te fiz.
Num abraço noturno,
Foi o amor quem me quis.

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Histeria sexual coletiva

Ultimamente tem ficado cada vez mais insuportável ler o que as pessoas publicam nesse universo digital. Isso sem contar o fato de que receber notícias por telejornais já se tornou (embora sempre assim tenha sido) algo extremamente perigoso e limitante.

Tudo, agora, é motivo para histeria coletiva e para isso basta que uma única pessoa discorde de um argumento qualquer apresentado, com ou sem bases lógicas aceitáveis/plausíveis. Dos desacordos nasce uma enxurrada de textos profundamente esclarecedores (mas nada, em verdade) que somente servem para demonstrar que preferimos a histeria ao raciocínio.

Me pergunto, por exemplo, se alguém já parou para observar que os termos “masculino” e “feminino” estão diretamente ligados a funções biológicas e atualmente pouca (ou nenhuma) relação deveria existir com funções sociais mais complexas.

Os homens decidiram que mulheres sofrem de determinadas incapacidades. É feio? Demais. Tão feio quanto, num processo vingativo, as mulheres decidirem que os homens sofrem com ainda mais limitações (especialmente mentais). Percebe o tamanho do erro? O famoso troco com a mesma moeda?

“Você diz que sou um lixo humano, então também digo que você o é. Assim ambos seremos felizes.” — se essa frase parece um absurdo… é porque é.

Nada vejo de esclarecimento sexual num homem extremamente vaidoso ou numa mulher extremamente peluda. Vejo apenas opções. Cada um deveria ter o direito de se sentir bem como bem entende, somente isso… nada mais.

Funções biológicas ligadas a padrões de beleza? Sinto dizer, mas esse argumento não vale. Seguindo os padrões de beleza por nós mesmos impostos, posso afirmar que a grande maioria de pais e mães são pessoas que poderiam ser consideradas dotadas de grande feiura. Embora possa existir muita beleza num corpo humano, a verdadeira beleza está em outro canto, não é estética.

Essa confusão já não era suficiente? Então que tal criar polêmica sobre uma criança tocar um homem nu numa sociedade que leva seus filhos aos vestiários de adultos do sexo oposto sem problemas? Que tal publicar a ideia de que aceitar “pinto pequeno” é benevolência feminina? Que tal “forçar a barra” com a ideia de que homem privado de seus impulsos sexuais é esclarecimento?

Seja santo ou safado, gordo ou magro, peludo ou pelado, contido ou impulsivo. Havendo respeito tudo é possível e ninguém se machuca. Está difícil perceber que o problema é social ou continuaremos tratando sexualidade como tabu por prazo indeterminado?

Afinal… quem foi que decidiu que homem não pode gostar de homem e que mulher tem que ser uma santa submissa? Foi a Biologia?

Só precisa haver mais respeito.

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Indecência

Um mundo doente, quase morto, a sanidade em quarentena, uma sociedade imprudente, imbecilidade complacente, um passado sombrio, História mal contada, um presente repugnante e uma imprópria ignorância constroem um futuro indecente.

Tudo vendo, soluçando sigo em frente, calculando minha alienação a uma realidade contundente. Descontente, sigo em frente apenas esperando que a sombra de nossa História se apresente… novamente.

Sou mais um daqueles que fingem sorrisos enquanto, em verdade, mostram seus dentes, doando abraços como uma forma de ataque, alimentando esperanças que jamais farão sentido, matando todos lentamente.

Assim como sem suas pétalas uma rosa não pode ser, um humano desprovido de motivos jamais será um bom vivente. E sem seu profundo raciocínio jamais tenderá a receber o título de eloquente.

Mas o sangue ainda quente ferve no peito como água na panela que se aquece com o calor que nem ao menos lhe compete. Borbulha até que se seque, consumido por um fogo que nem mesmo lhe toca, enquanto tudo ao redor, também fervendo, lentamente se derrete.

Nos tornamos plastídeos ressecados, presos aos dejetos do que outrora continha vida. E se nova chance tivermos, mataremos novamente?

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