Para o carro que eu quero vomitar!

É… não tem mais acento. Que se confunda com preposição e que se acredite que pretendo vomitar dentro de um carro.

Lembro-me de já ter escrito e discursado (papos de boteco) sobre a simplificação de nosso idioma com o clássico (e geralmente válido) argumento do nivelamento pelo inferior. Sei que nosso idioma é complexo e que generaliza-lo parece uma excelente ideia para equalizar a comunicação entre os lusófonos, mas tal atitude envolve um óbvio empobrecimento do mesmo, consequentemente gerando mais empobrecimento dos fluxos verbais que o atualmente perceptível e uma precedência lógica (pseudo- cabe aqui) para a qual recorrer sempre que o entendimento e a capacidade de compreensão do idioma sofrerem reduções por quaisquer motivos. Veja que a base da questão torna a ser, novamente, a educação. Novamente viajo por esse tema. E o prato agora está ainda mais cheio.

Terra plana? Acredite, estamos apenas no princípio do que ainda está por vir, pois os “teóricos” (pois é… nossa capacidade de compreensão chegou ao ponto de termos a maior parte da população inapta a compreender as diferenças entre especulação e teoria) da Terra plana são somente o resultado (nada estapafúrdio, aliás) do cruzamento de nossos ineficazes sistemas de ensino com nossos muito mais que eficazes sistemas de comunicação em massa. De forma grosseira, podemos sintetizar dizendo que, utilizando a Internet como armamento, a estupidez venceu. Mas a Internet foi somente a via de comunicação utilizada pela estupidez que globalmente se instala. Precisamos rever nossos sistemas educacionais.

Para acreditar na especulação da Terra plana, precisamos estar aptos a ferir a lógica e ignorar todos os avanços científicos de nossa recente História, precisamos negar, ou nada ter aprendido ao longo de mais de 12 anos, nosso período de escolaridade e/ou exposição a todo conhecimento que é diariamente estudado, reavaliado, discutido e disseminado. Jaz um tenebroso problema na incapacidade de avaliar argumentos e na inaptidão de se aplicar conhecimento.

Os motivos são diversos. A liberdade de expressão pessimamente utilizada; a inaptidão ao raciocínio lógico e a insuficiência de conhecimento para análises críticas, como temas centrais, são produtos de nossos atuais estilos de vida que delegam as mídias, acometidas pelo demônio da audiência, as funções de educação e informação. O problema nasce exatamente da incapacidade de se definir reais valores além de likes e cifras. Continuamos submetidos a uma estúpida e aparentemente interminável guerra por poder e influência.

Se a especulação da Terra plana não é suficiente para provocar profundo rancor, observe, então, a recente onda de espiritualizações parametrizadas como refúgio para o sofrimento causado pela incapacidade de se compreender o mundo, as pessoas ao redor e o próprio buraco em que se encontra o optante. Dentre estas, várias formas de espiritualização tomam por base ensinamentos como o fato de não sabermos quem realmente somos e nos fornecem a ideia de que somos muito mais evoluídos do que acreditamos. Novamente, observe bem, nada muda na supracitada guerra ao passo que espiritualizados começam a acreditar estarem mais evoluídos que os demais que não optaram por tal refúgio. Do outro lado estão os lógicos, agindo da mesma forma.

Vivemos lutando em guerras que nós mesmos criamos, que jamais existiriam se não as inventássemos. Isso deveria ser óbvio, mas desde muito cedo nos foi ensinado que “o importante é competir”, que “os fracos não tem vez”, que “o fraco é a carne que o forte come”, que ser monetariamente abastado é “vencer na vida”, que precisamos ser os melhores no que fazemos, que precisamos nos destacar dos demais, que não se leva desaforo para casa, que homem não chora e nem tem medo etc. A lista é interminável! Desde cedo ouvimos tais questionáveis ensinamentos sem prontamente questiona-los simplesmente por serem produtos de consensos, conhecimento comum. Desde cedo isso tudo nos é ensinado pois é a base da sociedade que criamos. Precisamos mudar tudo.

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Munducão

Lembro de um mundo diferente, um mundo mais leve, tranquilo e sorridente no qual as pessoas trabalhavam pelo enobrecimento da alma e pelos frutos que o trabalho trazia. As mulheres somente cuidavam das casas, eu sei, isso era um tanto insensato, mas ainda existia, na grande cidade, na correria do dia-a-dia, uma tal de liberdade.

Lembro, também, que esse mundo era menos esclarecido sobre seus próprios defeitos. As pessoas viviam felizes com suas alienações, mas conseguiam comprar suas casas e seus bens de consumo. Os problemas todos eram vistos como distantes, não nos pertenciam. Vivíamos felizes ignorando a realidade que estava a nossa frente.

Era, na verdade, um mundo de guerras sob dominações que pareciam cada vez menos sutis conforme as notícias ganhavam asas para atravessar os oceanos. Era um mundo como ainda é hoje, mas que nem mesmo conhecíamos.

Então vieram os movimentos, os mais diversos, que nos fariam começar a abrir os olhos para que enxerguemos o que realmente acontece nesse mundo e tudo isso afetaria profundamente as nossas vidas. Estava na hora de começar a acordar e questionar o que fazíamos e como vivíamos.

Chegavam, de mãos dadas, os inesperados ismos. Comunismo, socialismo, feminismo, agnosticismo, racionalismo… eram muitos e todos estavam disponíveis para serem experimentados, discutidos e estudados. Começamos a perceber que a única fonte de nossas alegrias era nossa próprio ignorância e que vivíamos vidas que nos individualizavam.

Não soubemos lidar com tudo aquilo e acabamos escolhendo o consumismo para afogar nossas preocupações num oceano de cacarecos, facilidades questionáveis e futilidades que acreditávamos que nos alegrariam. Demos força a um capitalismo separatista que afundaria em águas geladas a maior parte de nossa sociedade.

Até que entra em cena a internet. Aquele mundo, então, passava a ficar sob a mira das armas que a informação nos oferece. Conhecimento parecia ser tudo o que precisávamos para iniciar uma grande transformação. Mas, bem sabemos, não foi bem assim. O conhecimento continuou elitizado com ajuda da ascensão das mais aprisionantes formas de entretenimento.

Seriados atrás de seriados, inundações de falsas notícias, disseminação de pseudociências, produções educativas sem bases científicas ou logicamente argumentáveis, combates ideológicos, exacerbação e aplauso do idiotismo, exposição excessiva de egos. Com todas as ferramentas que tínhamos para criar uma sociedade mais saudável, construímos um mundo ainda pior.

Não se respira mais ar puro, não se bebe mais água limpa. Nem mesmo comemos mais os alimentos que a natureza propicia. Com tanto conhecimento disponível, descobrimos novas formas de sustentar um velho mundo e argumentos mais contundentes do que o “é assim porque é”. Antes pouco sabíamos sobre o quanto tanta gente sofria, hoje apenas permitimos. Pois, assim como antes, o mais importante de tudo no mundo é a nossa própria alegria.

Hoje, muitos dizem “aproveite a vida” mesmo sabendo que somente poucos isso podem. Apenas poucos parecem entender que precisamos harmonizar a sociedade para que a vida seja realmente aproveitada, pois nos enganamos enquanto nos forçamos a acreditar que o mundo é o tabuleiro de jogo de soma zero.

Numa vida em sociedade não existe sentido numa isolada gargalhada enquanto todos ao redor enxugam as lágrimas, pois o individualismo descaracteriza o conceito de sociedade. O que temos hoje são meras aglomerações facilitadas por ideologias diversas que se confrontam e se validam na insuficiência e imprudência de argumentos. Precisamos entender e aceitar que estamos todos, sem qualquer exceção, completamente errados, mas o individualismo nos impede, pois, com ele, o “eu” sempre estará correto.

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Poema malfeito de morte certeira

És um mar de desespero,
És um erro, és um erro.
Me puseste em desatino,
Me trouxeste a terra firme,
Mas há medo, tenho medo.

Pois da terra brota a dor
Semeada pelo enterro
De quem não foi despedido,
Viveu longa vida triste
Desprovida de enredo.

Vem da vida a própria morte,
Mesma tal que finda a vida.
Galopante, enfrenta a sorte,
Deixando a carne com ferida.
No pescoço faz um corte,
Torna a alma mais sofrida.

Mas levante! Me levante!
Não findou a minha História!
Vou seguindo adiante,
Busco mais uma vitória!

Empunho minha espada,
Mas não choro na partida.
Foi construindo minha estrada
Que aprendi a amar a vida.

No futuro me aguardando
Estará a primeira estrofe.
Se surgirem questionando,
Diga apenas que fui forte.

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Sobre a Vida

A vida. Ah! A vida! O que dizer sobre, quando há tanta gente falando dela?

Tem gente que tenta empurrar em nossas cabeças que a vida é um presente. Mas não é. Eu discordo de vocês. Não é um presente porque não é para poucos. A vida é abundante, está e surge em toda parte. O único princípio dela é a própria existência. A vida é para todos.

E se o único princípio é a própria existência, não é algo que nos pode ser dado, até porque precede a todos, é algo que nos forma. Pertencemos a vida e nascemos nela, não com ela. Somos nós o presente da vida, pois a compomos.

Se somos parte da vida e presentes para ela, então também somos presentes para nós mesmos. É bem como dizem: a vida é cheia de surpresas. E a verdade é que sempre será bela, pois dela todos descendem, até mesmo os desejos.

Viver também não é uma arte. Quem diz algo assim não entendeu muito bem. É estar em harmonia com o presente, a arte é atemporal. Viver, sim, é um deleite. E é um dever que temos por bem. Nunca foi a vida quem nos fez mal, fomos nós mesmos enquanto não a compreendemos.

Tampouco a vida é complicada. Nós que o somos. A vida é simplesmente a vida, somos nós que a vivemos errado. Nos complicamos por não nos entendermos e culpamos a quem jamais se opôs, apenas nos permitiu estar aqui.

Acerta, porém, quem diz que na vida não existem certezas. Viver é estar constantemente em dúvida e é isso que nos faz crescer. Se já soubéssemos o que está adiante, jamais precisaríamos viver.

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