Reprogramados

No gigantesco, confuso e ocasionalmente distópico mundo da espiritualidade humana há uma corrente que afirma, sem a interferência de dúvidas, que nós mesmos somos os criadores, os arquitetos desse universo. Embora tal afirmação esteja presente nos campos da Filosofia sob infindáveis pontos de vista, foi, recentemente, a Quântica a precursora das mais confusas discussões a respeito do assunto ao afirmar que existe a possibilidade de que tudo inexista, conforme nosso conhecimento, quando não estamos observando a existência do todo.

Sim! O que já era humanamente confuso tornou-se cientificamente confuso, mas isso é vertigem. A Quântica nos forneceu tal afirmação ao observar o comportamento de partículas subatômicas e até o momento não foi suficientemente desenvolvida (nem possui, ainda, disponível a tecnologia necessária) para que possa executar cálculos de interações complexas além do universo subatômico, impossibilitando que esta faça, até então, afirmações sobre nosso universo visível que estejam além da exploração de formações multidimensionais em suas essências ou sobre formação de e interação entre partículas subatômicas.

Atualmente é muito comum o argumento de que a ciência vem colaborando com a espiritualidade. Embora não exista, objetivamente, colaboração entre ambos, podemos afirmar que, mesmo que o desenvolvimento científico seja um produto da vida ativa, tem seu motivo, assim como a espiritualidade, oriundo da vida contemplativa e não podemos, por simples lógica, desconectar os feitos humanos da humanidade. A expansão do conhecimento científico não está objetivamente ligada a expansão do conhecimento espiritual, mas ambas são produtos diretos da curiosidade e da inventividade humanas e possuem os mesmos motivos comuns, como a busca por respostas, o autoconhecimento, o conforto etc. Desta forma, podemos sumariamente descartar divisões e embutir ambas “facetas” num único campo comum: desenvolvimento humano.

Observe que qualquer assunto ou objeto de estudo deve ser incluso, por motivos óbvios, na História do desenvolvimento humano e que toda exploração, criação ou conclusão resulta na composição e adaptação, por motivos ainda mais óbvios, do conhecimento humano. Se traçarmos uma linha do tempo imaginária e analisarmos com certo cuidado, poderemos perceber que o conhecimento parametrizado é uma simples expansão do conhecimento dedutivo, portanto, impossível de existir sem um conhecimento prévio que leve a uma dúvida a ser explorada, algo que nos facilita entender como o próprio desenvolvimento científico é fruto direto da espiritualidade humana. De forma nada esdrúxula, podemos sintetizar afirmando que não existe dúvida onde não existe informação a ser duvidada.

Observe, também, que existe uma tendência “quase natural” a segmentação entre conhecimentos teórico e prático ditados por nossas estruturas sociais. O mais valioso conhecimento sempre será o teórico, pois é dele que nascem os motivos para se desenvolver conhecimento prático, porém este é incompatível com os pilares de nossas vidas atuais que exigem esforços práticos para que sustentemos nossas próprias vidas e confortos. Desta forma, acabamos por criar divisões como “Física Teórica” e “Física Aplicada”, ignorando o fato de que ambas se resumem a mesma coisa e passamos a dar mais valor ao prático, o “conhecimento pronto” ou a “filosofia popular”… decisão que nos limita o conhecimento.

Lentamente, geração após geração, nos reprogramamos para ignorar o real valor de algo que poderíamos chamar de “raciocínio profundo”, relegando tal aos que hoje chamamos de gênios e/ou gurus, para os quais tal forma de raciocínio poderia ser sintetizada como mero fruto da curiosidade humana. Chega a ser assustador observar que, durante nossa própria reprogramação, estamos favorecendo somente o prático em detrimento do teórico e que, durante todo esse processo, estamos abandonando nossas capacidades artísticas* e de conceitualização abstrata.

* Se há dúvidas, aqui, observe que toda nossa arte vem sendo cada vez mais parametrizada. Poesia, música, teatro e dança, por exemplo, são as formas de arte que mais sofrem parametrizações. Muito disso se deve a parâmetros sociais e muito mais se deve a parâmetros criados pelo mercado aplicando métodos de redução e equalização em busca da maximização dos lucros. A própria natureza humana nos tem feito menos humanos.

Existe, do meu ponto de vista, uma necessidade de reconexão com nossa própria essência. Nossa curiosidade não pode ser repreendida e nossa inventividade não deve ser punida com a exclusão de círculos sociais unicamente práticos. Se os “espiritualistas quânticos” estivessem corretos… nada mais existiria, pois nada mais observamos.

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