La reina

Nunca fui fã de feriado comercial e nunca gostei do furor que um destes provoca. Devo confessar, também, embora seja uma afirmação “batida”, que um único dia de homenagem jamais seria suficiente… nem mesmo um ano, nem mesmo uma vida.

Talvez palavras até tentem traduzir aquilo que não há como se dizer, talvez um abraço dê uma pista. Talvez um sorriso. Ou talvez nada possa ser dito ou feito para que se demonstre o que se tem por dentro. Talvez só possamos dar pistas.

Mãe talvez seja a personificação do amor… ou está além, não sei dizer. Talvez o único jeito de dizer, explicar e entender seja a própria palavra que a define: mãe. E para a minha, mesmo sem saber exatamente como, deixo minha mensagem:

Se realmente existem muitas vidas, que na próxima estejamos juntos novamente. Vou querer novamente te abraçar e te ver sorrir. Mas dessa vez vou querer ser teu pai… para que me dê o trabalho que te dei e para retribuir todo o amor que recebi.

Se não existem, não se preocupe. Mesmo com infinitas vidas, o tempo que poderíamos passar juntos jamais seria suficiente quanto são os abraços que me dá de presente.

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Um futuro nada brilhante

Veículos autônomos transportam passageiros aos seus devidos locais de trabalho. Uma suave música soa aos ouvidos de cada passageiro através de equipamentos que emitem sinal de áudio direcionado, eliminando a necessidade de fones de ouvidos. A paisagem, porém, não é tão diferente, ainda, do que era no passado… as ruas de muitas cidades ainda estão esburacadas, muitos veículos ainda poluem nossa atmosfera, a exposição ao Sol chega a ser quase insuportável devido a deterioração da camada de ozônio e podemos encontrar muitas pessoas nas ruas, talvez muito mais do que antes, em busca de colocação no mercado de trabalho.

Muitos se tornaram empreendedores e a corrupção se tornou, infelizmente, um pré-requisito para a obtenção de sucesso em nossa sociedade, pois somente empreender passou a nos trazer a necessidade de viver de trocas de produtos, serviços e favores. Empreender não está nada fácil, mas isso nem mesmo é novidade. Quem trabalha com tecnologia até que se vira bem, mas os verdadeiros ganhadores são os guerreiros do marketing… que vivem uma verdadeira guerra em busca de cada centavo ainda disponível nos bolsos do proletariado.

No horário do almoço, surge uma manifestação tentando impor a ideia da terra plana enquanto outra, próxima ao centro da cidade, exalta o nome de mais outro político tido como uma espécie de salvador da esquerda. Tantos anos depois de um colapso social que poderíamos ter evitado ainda estamos divididos por essas ilusões de esquerda e direita. Mas uma boa parte da sociedade se libertou dessas amarras e passou a viver longe dos grandes centros urbanos. Eram, inicialmente, vistos como uma espécie de hippies da sociedade alternativa (algo de muitos séculos atrás), mas há uns anos isso mudou e a violência passou a ser uma ameaça constante para esses grupos desde o momento em que começaram a utilizar tecnologias promissoras para ampliar a produção de alimentos.

Do outro lado do mundo, a guerra continua. Todo o dinheiro que nos falta para comprar os alimentos cada vez mais caros e a rara água potável é empregado no desenvolvimento de tecnologias militares e bombas cada vez mais perigosas. Semana passada, onde antes ficava a Síria, soltaram uma dessas bombas com um composto químico que resseca os tecidos vivos e apresenta taxa de mortalidade de quase 100%. Especialistas especulam sobre a possibilidade de isolar a área por pelo menos 600 anos, pois desconhecem os efeitos de longo prazo. Nem mesmo baratas sobraram.

Em meio a tudo isso, já terminaram a construção de mais uma base lunar de luxo e as primeiras viagens de plena colonização de Marte já estão agendadas. Gostaria de curtir minha aposentadoria em um desses lugares, mas o crédito que consegui guardar ao longo desses 160 anos de trabalho não será suficiente.

Por falar em aposentadoria, há poucos anos conseguimos uma vitória: depois de mais de 50 anos de lutas, temos novamente a Previdência Social e podemos, agora, nos aposentar com apenas 160 anos de trabalho. Pelo que pude estudar da História, porém, estamos cometendo o mesmo erro de quando a expectativa de vida no mundo não chegava aos 100 anos.

Já que toquei no assunto da expectativa de vida… as coisas estão feias. Para alguns se fala em torno de 600 anos, para os encarregados (citados em alguns livros como classe média) se fala em 200, mas para a grande maioria da população a expectativa de vida segue em queda. Para a maioria dos brutos (como estão sendo chamados pelos reis do capital) a expectativa não passa dos 40 anos, o tempo aproximado que temos (nós, encarregados) para desfrutar da aposentadoria. Os motivos são quase infinitos.

Lembro-me de ter estudado sobre os planos que fazíamos no passado. Lá pelos idos de 2020, se não me engano, haviam iniciado os primeiros projetos de colonização pois nosso planeta se encontrava quase incapaz de sustentar a vida. Muita gente morreu em guerras, como ainda fazemos hoje, mas conseguimos manter a espécie presente. Lembro-me de ter lido algo sobre o mundo ter aproximadamente 8,5 bilhões de habitantes, um número muito menor que os quase 20 bilhões de hoje, mas fico pensando como a situação, embora os relatos da época digam o contrário, era favorável, pois com menos da metade da população já tínhamos desenvolvido quase toda a tecnologia que utilizamos hoje, quase 1500 anos depois. Só imagino como devia ser péssimo ter que depender de um aparato que conectava equipamentos digitais de lógica booleana no mundo todo chamado de Internet. Pelo que pude ler, naquela época não acreditavam em nossa própria capacidade telepática, portanto todos dependiam dessa Internet para permitir que terminais de comunicação executassem essa tarefa para nós.

Outra coisa do passado que admiro é a música. Já ouviu alguma? Elas eram fantásticas e produzidas por nós mesmos. Nem mesmo imagino como éramos capazes de domar aqueles aparelhos emissores de sons e usar nossas próprias mãos para adequar os sons emitidos aos algoritmos musicais. Li num livro, certa vez, que isso era chamado de criatividade e que muitos dos criativos podiam ser considerados verdadeiros gênios, embora eu não tenha compreendido direito que conexões a criatividade possa ter com a genialidade necessária para um mais completo entendimento das teorias que surgiram com base na antiga e obsoleta teoria quântica.

Por falar em livros, isso foi algo muito interessante que descobri. Perto de casa há uma biblioteca saudosista que fornece esses blocos de tecido orgânico segmentados em lâminas que chamam de livros. Embora não me pareça algo prático, pois prefiro a transferência de conhecimento via conexão cortical, há muito conteúdo interessante e gratuito. Podemos aprender sobre nosso passado sem gastar créditos para cada pacote de informação, embora a precisão desse sistema pareça ter se perdido ao longo do tempo. Erros são esperados especialmente em imagens que notavelmente se deterioraram e exibem absurdos como a presença da cor azul no céu e na água do mar, aparentemente uma falha sistêmica que afeta todos os livros – preciso de mais dados para validar essa proposição, porém não pude localizar, ainda, o módulo de armazenamento de informação destes.

A vida aqui na Terra está complicada, como de costume, meu amigo. Mas logo estarei aposentado… já foi definida minha transferência para a segunda base lunar – o antigo casarão, como você diz – e em breve estaremos juntos novamente. É uma pena não podermos nos comunicar telepaticamente devido ao bloqueio atmosférico, mas espero que essa tecnologia antiga pela qual estou te enviando esse texto ainda funcione.

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Uma verdade sobre a vida

Vejo que a vida, especialmente durante o “agora”, é tão ignorada e mal compreendida quanto abundante e que seu conceito é constantemente adaptado ou transformado para que caiba na verdade que estiver sendo explorada, normalmente para meros fins de autoafirmação ou tentativa de imposição de uma qualquer verdade pessoal.

É! Pessoal!

Observe que a própria palavra verdade, quando citada, geralmente carece de uma devida explicação. Precisamos estabelecer um parâmetro antes de confundirmos, como de costume, as possíveis significações de uma mesma palavra. Verdade pode ser tanto subjetiva quanto objetiva.

Chamo de subjetiva aquela verdade com a qual estamos mais acostumados: a nossa verdade. Se me julgo inteligente, então, é verdade que sou, baseando-me em meus próprios critérios de julgamento. É, para mim, verdade que uma pessoa verbalmente agredida se sinta humilhada, pois acredito que agressões verbais sejam humilhantes e projeto meu provável sentimento a outrem. Veja como a empatia também exerce grande poder sobre a verdade subjetiva, que se torna nossa conforme sofre alterações oriundas de interações sociais para que seja adequada a um “meio termo” razoável para um determinado grupo.

Já a verdade objetiva apenas é. Um motorista dormiu ao volante e bateu num poste. O cansaço do motorista, com fato exposto de forma tão simples, é uma verdade subjetiva e não altera o fato, ao qual pertence uma verdade objetiva. São verdades objetivas a presença de um poste, a existência e a avaria de um carro, o motorista que dormiu ao volante e um acidente de trânsito pois são fatos, e, portanto, inalteráveis. O acidente independe de meus conceitos.

Voltando ao assunto, então, a verdade sobre a vida da qual falo é objetiva. Não é algo da minha cabeça que tentarei embutir na tua e não depende de argumentos subjetivos, é simplesmente algo que, talvez, você tenha ignorado até agora: tudo está vivo. Sim! Tudo!

Segundo a etimologia, vida vem de vita, que, em Latim, significa existência. Em essência, a simples existência significa vida, mas nossos conceitos (sim, no plural) são muito mais amplos e subjetivos do que isso. Na tentativa de se determinar um limite entre a simples existência e uma mais complexa, para a qual utilizamos a palavra vida, cunhamos, ao longo do tempo, uma infinidade de definições na tentativa de parametrizar nossa própria compreensão sobre o assunto. Todas definições, porém, conforme se ampliam e recebem maiores elucidações tendem a apontar na mesma direção, deixando a entender que tudo aquilo que se transforma ao longo do tempo está vivo.

Talvez, acredito, a definição mais complexa para se fazer essa ponte seja a biológica, pela qual entende-se que a vida está presente em organismos capazes de sustentar animação através da síntese ou processamento de alimento. Mas, mesmo com essa definição, podemos levantar questões como o fato de buracos negros (para os quais não fazemos relação com a palavra vida) se enquadrarem nessa definição, na mesma em que poderíamos “encaixar” os próprios átomos que se mantêm em estado de animação sustentados pelos seus próprios diferenciais elétricos (sim… expus de forma preguiçosa). Embora ambos exemplos não se enquadrem no conceito de organismos, se comportam como tais sob o próprio ponto de vista que os exclui, e, portanto, pela própria lógica, devem ser considerados vivos.

Outra definição, pessoalmente preferida, incorpora a ideia de que tudo aquilo que se transforma ao longo do tempo está vivo. Sob tal ponto de vista, nossas próprias ideias estão vivas… nossas próprias memórias, o que faz com que de certa forma o próprio passado (considerando o erro de tempo linear) esteja vivo, pois, mesmo que subjetivamente, este continua em transformação. Com essa definição podemos obter um conceito paraconsistente que permite tanto maior objetividade quanto subjetividade, mas não menos válido em amplitude que o anterior, já que ambos encontram um ponto em comum – o autossustento gera transformação do próprio “organismo”, algo sustentado (em base) pela própria Termodinâmica – e se ampliam ao passo que o “organismo” promove transformação, portanto atribuindo vida, ao próprio meio em que se encontra.

Observe a amplitude que o conceito de vida adquire ao considerarmos apenas dois conceitos básicos. E observe que, mesmo que ambos pareçam completamente distantes entre si, ambos passam a se validar e a se complementar, nos levando a um fato que ignoramos como forma de um ritual diário em nossas vidas: tudo está vivo porque tudo “provoca” vida.

Veja: a vida depende de sustentação e síntese/processamento de alimento – algo que já ocorre em nível atômico e até mesmo subatômico, embora eu não tenha explorado esse aspecto – e transformação. Numa observação mais prática, é impossível eu me sustentar, transformando alimento em energia, sem provocar transformações no meio em que vivo. E transformar o meio é atribuir vida (sob o ponto de vista deste conceito) a ele. Esses conceitos ainda se conectam mais profundamente quando observamos que estamos atribuindo vida ao que já está vivo e que há, ainda e portanto, reciprocidade em tudo.

Desta forma, nos baseando em apenas duas definições básicas, já podemos chegar a uma verdade objetiva sobre a vida: a de que tudo tem vida e que a estamos compartilhando com todos e tudo ao nosso redor.

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