Vazios

Mulheres maquiadas, bonitas, embaladas em roupas apertadas e que fazem os homens delirarem, sonharem de olhos abertos enquanto todos rumam ao trabalho.

Homens bem arrumados, de barbas bem cuidadas e aparadas, embalados em roupas caras e que das mulheres arrancam suspiros enquanto todos voltam para casa.

Mas, nas cabeças, nada além de cabelos, ouvidos seletivos e bocas barulhentas que despejam ignorância como se os outros fossem penicos melecados de dejetos fétidos que os alimentam.

Fatos, pessoas, estórias mal contadas se espalham com o vento e outros meios já dominados pela estupidez coletiva. A vida lentamente se torna somente uma fofoca, uma grande mentira que explica como todos morrem e somente eu sobrevivo, pois, ao contrário de todos os outros, sou indivíduo dotado de grande esperteza e excelente raciocínio, correto em todos aspectos, infalível, que beira a perfeição que se manifesta em minha auto-idolatria.

Os demais são somente lixo, obstáculos, estorvos despejados no mundo para que o caos que causam me permita a busca pela perfeição. Sou humano como nenhum outro e mereço todos os aplausos, um exemplo a ser seguido.

Sou tão mais evoluído que os zumbis apodrecidos que entopem o mundo que inevitavelmente me distancio. Não posso sustentar contato com inferiores para que minha quase perfeição não se infecte e desvalorize. Nem posso toca-los pois são sujos, como ratos de esgoto ou baratas nas quais piso sorrindo.

Sou tão incrível que talvez seja mentira. Talvez, se parar pensar em mim mesmo, algo que certamente não preciso, eu descubra que sou somente como todos os outros que são vazios.

Padrão

Onde está?

Na garota que dança numa estação de trens, no skatista que grita “consegui”, no sorriso da criança com um pacote de biscoitos, na gargalhada de um amigo, nas árvores, nas estradas, na música que toca no rádio, na brisa do verão, no próprio verão, no frio do inverno e na fumaça de vapor que expelimos, na brincadeira de um desconhecido, na fé, na ciência, na arte e até na sacanagem.

Nos amigos que reencontramos, no sangue que nos percorre, nos professores que adoramos, nas mãos que nos tocam, na mãe que nos faz, na mãe que nos cria, no pai que já foi embora e na saudade que deixou. Nos enroscos que vivemos, nas agonias que tivemos, nas esperanças que nos guiam, nas frases de efeito e nas verdades que nos são ditas.

No copo em que bebemos, na companhia, na água que transborda, na saúde, na doença, na tristeza e na alegria. Nos livros que ainda não lemos, nas palavras que já nos machucaram, na derrota que sentimos e na vitória pela qual batalhamos. Nos sapatos que usamos, nas roupas que damos, nos presentes que ganhamos, nos encontros que perdemos e reuniões que marcamos.

Num show de mágicas, no mendigo que canta perto da padaria, no pão que deixamos endurecer para comer como torrada no outro dia. Na tranquilidade do lar, na rua, na folia, no medo que nos domina e na coragem que nos fascina.

Não precisamos procurar, só nos basta entender. A beleza da vida está em nós e em todas as coisas e pessoas que nos cercam. Está tanto na união quanto na solidão, na carne e no espírito. A beleza está na própria vida e se estende pela morte. Está em nós e estamos nela.

Então sorria!

Padrão