Um bicho engraçado

Ser humano acha lindo o cachorro adestrado, talvez porque represente algo como um reflexo no espelho, uma besta vivendo no mesmo estado, alguém que se prontifica a obedecer a um comando sem qualquer consenso, um bicho acoado e amedrontado. Gostar de correr, brincar, latir, lamber e pular é coisa estranha, quase inaceitável, coisa de criança que os pais não educaram, coisa de esquerdista dissimulado, coisa errada e muito mal vista… coisa que só faz quem é retardado.

O Ser Humano também fala muito das coisas… das coisas dos outros… dos outros. E fala mal, como fala do cachorro pouco educado que pede colo e pula em cima. O Ser Humano fala muito, mas geralmente diz muito pouco… o mesmo pouco que entende sobre si mesmo. Mas se imagina ser tudo o que fala. Grita muito quando o melhor seria se calar, mas fala baixo quando deveria ser ouvido, fala besteira sem se preocupar, fala demais sobre o que não lhe compete. Esse bicho é muito mal educado.

Cria os sistemas aos quais se aliena e perde o controle, constrói prédios para aumentar a densidade populacional em regiões onde pessoas nem mesmo se conversam (nem se conhecem), viola o espaço alheio enquanto esbraveja exigindo privacidade, constrói templos para buscar a paz enquanto suporta (geralmente sem se dar conta) a guerra e a exploração de outros da mesma espécie, acredita que a cor da pele define a personalidade e que as posses definem a índole.

É um bicho tão engraçado que consegue ignorar toda a ciência e afirmar que somente o cachorro dele é um animal. Tão engraçado que vive vida fodida — se não tem posses vive no desejo, mas se tem posses implora por sossego — e se julga mais esperto que o cachorro que, além de curtir a vida, distribui amor sinceramente e sem esperar em troca um só centavo.

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