O brinquedo

O consumismo! Ah, o consumismo! O mais beato dos devotos de uma divina imprudência. O mais verdadeiro amigo do statu quo numa sociedade formada e guiada por pessoas que propositadamente se iludem com o benefício da posse para se cegarem de suas próprios involuções. O amigo do peito de uma sociedade que não se compreende. O ditador de nossas verdades.

O mercado! Ah, o mercado! Uma tenra ilusão que se presume sempre presente. O mais belo dos disfarces de nossa própria ingratidão que nos priva da contemplação do fato de que viramos meras coisas, mercadorias, os brinquedos de outros que também se tornaram coisas. O abstrato que se tornou a ciência de seu próprio substrato. O ditador de nossas vidas.

Há uma confusão quase generalizada no que diz respeito ao desenvolvimento tecnológico causada pelas ideologias de mercado e consumismo. Primeiro porque o que se entende como tecnologia se centra em dispositivos eletrônicos enquanto a etimologia grita em nossos ouvidos estudo do tempo (já que arte e conhecimento são as bases para isso). Segundo porque o tempo a que se refere nos inclui como personagens principais enquanto assumimos papéis secundários de desenvolvedores de nosso próprios brinquedos.

Sim! Brinquedos! Não podemos chamar de ferramentas tecnológicas objetos que não nos servem ao nosso próprio desenvolvimento, esse que trocamos pelo desenvolvimento constante de nossos próprios brinquedos enquanto dubiamente nos assumimos incapazes de feitos e realizações da própria espécie. Criamos brinquedos tão maravilhosos que nos assumimos incapazes de nosso próprio desenvolvimento para que passemos nossas vidas os cultuando como os novos deuses daquilo que chamamos de civilização. Tudo me parece transferência e projeção.

Sim! Transferência! E… sim! Projeção! Transferimos a objetos a nossa necessidade de desenvolvimento para que possamos nos manter em nossa verdadeira zona de conforto: o conhecido, aquilo que acreditamos ser e já consideramos suficiente. E projetamos nossa necessidade de desenvolvimento a esses objetos para que eles possam nos fazer acreditar que continuamos nos desenvolvendo. Deu tão certo que nos convencemos e passamos a acreditar que o desenvolvimento de nossos brinquedos é o nosso próprio. Mas evitamos perceber que esses brinquedos formam um próprio sistema do qual nós mesmos somos seus brinquedos e dedicamos nossas vidas ao desenvolvimento e aquisição de novos brinquedos que nos convençam de que não somos nós mesmos nossos próprios brinquedos.

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Tem algo errado

Aviso:
Isso é e não é uma poesia. É um texto de qualidade inconsistente e que apresenta dois pontos de vista divergentes, mas que se finda numa proposição levianamente consistente.

Consideração pessoal:
Devido aos textos que cunho, sou obrigado a conviver diariamente com críticas destrutivas geralmente ofertadas por pessoas que nem mesmo entenderam qual mensagem estava sendo passada quando se depararam com um ou mais desses textos que cunho com um único objetivo: provocar questionamento.
Meus textos são propositadamente de qualidade inconsistente e rodeiam propositadamente ideias divergentes no intuito de mostrar que não existe consistência em nossos ideais, existe apenas consonância (e aqui utilizo essa palavra de forma aberta a atribuição de significações com o intuito de demonstrar meu ponto de vista). Isso ocorre tanto nesse blog, quanto no Minonôu, quanto em muito do que posto no Facebook.
Palavras são frutos de uma simbologia que se conecta a infinitos significados conforme se juntam e considero isso em todos meus textos. Não escrevo de forma objetiva pois não procuro provar algo, procuro disseminar minhas próprias questões de forma que você, leitor, possa compartilhar um pouco de minha agonia em relação a nossa profunda ignorância.
Se seu objetivo é o de obter respostas sem ampla compreensão dos fatos e ideias que nelas resultam, então provavelmente acreditará naquelas que mais estiverem em consonância com seus próprios anseios e temores, o que provavelmente significa que não as encontrou e apenas aceitou uma opinião fornecida como certeza. Se seu objetivo é o conhecimento “pronto” ou o entretenimento, peço não-tão-delicadamente que feche essa janela e jamais retorne a esse blog. Você não precisa perder seu tempo me criticando por não estar de acordo com suas expectativas. O que proponho aqui é pensar de uma forma que você talvez nem mesmo conheça. E não! Não estou tentando me elitizar com essa última afirmação, o que digo com essa é que somos diferentes, temos caminhos e objetivos diferentes e pensamos de formas diferentes.
Mas se o que você procura pode ser sumarizado como uma sucessão infindável de dúvidas que nos levem a um mesmo que vago esclarecimento da paraconsistência existencial e está aberto a mergulhar num mundo onde cada palavra possui infinitos significados subjetivos que se transformam com a presença de outras palavras e experiências, quero que saiba que estamos boiando no mesmo oceano e espero que minhas dúvidas o ajudem a ampliar seu catálogo.

 

Tem algo errado no que nos ensinam,
tem algo errado no que nós entendemos,
tem algo de ruim nos que nos repudiam
se tem algo de errado no que nós dizemos.

Tem algo esquecido que nos vale tamanho,
tem algo esquisito na força escondida,
tem algo sinistro em pertencer ao rebanho,
tem algo de errado na opção escolhida.

Tem gente que morre ao fugir do pecado,
tem gente que passa a vida toda calada,
tem gente que sofre com qualquer recado
se tem algo de errado com a palavra falada.

Tem algo profundo no que nos ensinam,
tem algo profundo no que nós entendemos,
tem algo de lindo nos que nos repudiam
se tem algo de errado no que nós dizemos.

Tem algo tamanho no que foi esquecido,
tem algo escondido numa força esquisita,
um rebanho que espera poder ser bem provido
e uma opção que espera jamais ser escolhida.

Tem gente que adora viver do pecado,
tem gente que cala a vida de outra pessoa,
tem gente que vive mandando recado
sem se dar conta de que a palavra ressoa.

Tem algo de lindo em quase tudo o que queremos,
mas tem algo de errado naquilo que todos fazemos.

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