Retrospectiva pessoal 2016

Mas que ano lixo para minha saúde financeira! Sério. Esse foi o ano em que aprendi duras lições sobre a vida e as pessoas, um ano em que dividi meus dias com a raiva, a depressão, o tédio e minha própria burrice. Mais um ano em que me esforcei pelos outros e nada fiz para mim mesmo. Nem acabou, mas já não há como salvar esse último mês da mesmice dos demais anteriores. As festas do final do ano serão regadas a muita água, arroz, feijão preto (que foi o que deu para comprar, todos bem sabemos o porquê) e sal (único tempero que sobrou).

Se nos anos anteriores tive uma trajetória profissional razoavelmente proveitosa, esse foi o ano em que tudo degringolou. Acreditei em contos de fadas empresariais, fui enrolado e enganado, paguei para trabalhar, fechei portas por ter acreditado em tais contos que me fizeram agir de forma inadequada (algo que só percebi quando já era tarde) e acumulei dívidas e desespero.

Na esfera social, essa falta de recursos financeiros me trouxe a solidão. Não posso nem pensar em encontrar meus amigos pois não tenho dinheiro nem para pegar ônibus, qualquer moeda que me apareça serve imediatamente para comprar pão ou arroz. Mas essa solidão… Ah! Essa solidão me ensinou muito. Tive muito tempo para pensar na vida e suas iterações e agora vejo o quanto a exclusão social pode nos tornar muito mais vivos e cientes do mundo ao redor.

Embora, pelo início do post, a situação pareça muito tensa (e é), o que quero compartilhar é meu ponto de vista sobre o quanto podemos tirar proveito disso (acredite, é possível). E portanto criarei uma divisão por três tópicos, começando pela parte ruim e ascendendo ao maravilhoso aprendizado que tive.

 

Carreira

Não dá para culpar aos outros, embora minha primeira reação tenha sido essa. Já tive muita experiência com pilantragem e mentiras no começo da carreira, mas mesmo assim preferi acreditar nos sonhos que algumas pessoas diziam ter, mesmo sabendo que, na verdade, o único objetivo era o de ganhar dinheiro, independente do que precisassem fazer. Mas… o dito sonho era compatível com o meu e resolvi, no final de 2015, encarar o desafio como uma meta pessoal. Então comecei o ano acreditando que tudo ia bem.

A proposta era maravilhosa, mas vinha acompanhada de contos de fadas e muitas mentiras. Algumas mentiras terríveis, para falar a verdade, que envolviam meu antigo “patrão” e seus sócios e me fizeram querer interromper contato com eles da forma mais abrupta possível. Para piorar, tive minha mochila furtada com todos os equipamentos que devolveria no dia seguinte a empresa. Fechava, assim, as portas para a empresa que mais acreditei em todos meus anos de carreira e as trancava com cadeados de titânio.

Kabum! Cai a bomba! Logo no começo do ano…

Os sonhos eram, como esperado, grandes mentiras. Não existia a ambição de desenvolver novas tecnologias como combinado (veja bem) anteriormente. A única proposta que realmente existia era a de ganhar dinheiro, muito dinheiro, em cima da inocência alheia (e isso vale tanto para colaboradores quanto para clientes). Um belo golpe que me levou ao desentendimento com meus novos “patrões” e trouxe enorme desconforto para ambos os lados.

E então aquela depressão que já me acompanhava desde sempre, mas que sempre soube controlar, toma conta da minha vida. Não pela falta de dinheiro, mas pela falta de perspectiva. Afinal, era um sonho que se diluía numa solução extremamente ácida. Por sorte havia uma válvula de escape: a perseguição de outro grande sonho, o de me formar em Psicologia e poder trabalhar com desenvolvimento humano. Um sonho que passava a correr sérios riscos, afinal… sem dinheiro como se paga o curso?

Começa a caça por trabalho num mercado assolado por uma crise imposta, em resumo, pela mídia. Muita qualificação para cargos inferiores (desculpem-me pessoas de RH, mas recusar candidatos por terem mais aptidões que as requeridas para as oportunidades somente demonstra uma terrível estupidez que atualmente domina a área de vocês) e pouquíssimas vagas para serem preenchidas por amigos (viva a “panelinha”). Isso, ainda, aliado a uma depressão e um desespero que prejudicavam gravemente o desempenho nas poucas (realmente quase nenhuma) entrevistas que apareciam.

E nada de trabalho! Nada! Nada mesmo! Enquanto isso as economias escorriam pelo ralo. Contas atrasadas, dinheiro despendido em tentativas desesperadas de conseguir trabalho (inclusive propaganda ofertando curso para quem não quer), tentativas de começar o próprio negócio (algo que já acontecia há tempos) com pessoas que esperam a magia das coisas ficarem prontas sem esforço algum e o curso de Psicologia mais os materiais (livros nada baratos) comendo o pouco que restava.

De repente, surge uma oportunidade duvidosa na mesma empresa que me desiludiu. Já sabia que estava entrando numa fria, mas já fazia um tempo que somente comia o que minha mãe conseguia me fornecer de comida… que infelizmente precisava alimentar a mim, minha esposa e mais um familiar que passava pela mesma situação.

E começa novamente. Muitos chefes com muitas ordens diferentes e um cliente com uma expectativa que não se alinhava com nenhum deles. Trabalho jogado fora, mais desilusão, mais resistência a inovação, resistência as próprias expectativas de tal cliente, mais desavença e finalmente uma nova demissão… resumidamente óbvia. Segue-se mais tempo parado, agrava-se a depressão, passo dias imóvel sem querer contato social enquanto cresce a certeza de que sou inapto e inútil. Um agravante? Para que conseguisse trabalhar nesse cliente (distante, muito distante de casa e da faculdade) precisei interromper meu curso de Psicologia, o que me atirou num buraco sem fundo e me fez perder completamente a vontade de continuar nessa luta. Pretendia continuar, mas como fazer isso sem dinheiro e ainda com mensalidades atrasadas que me impedem a rematrícula?

Salvação! Um amigo, agora gerente de uma grande empresa, precisa de ajuda! E lá vai, finalmente, mais uma entrevista seguida de contratação. Excelente! Me encho de força enquanto lentamente se pauta uma mesma situação já conhecida, dessa vez causada por falta de comunicação da consultoria que me contratou, objetivos ocultos, segredos em relação a contratos e expectativas e enraivecimento provocado pela inércia de outros fornecedores envolvidos no projeto em que atuava. Enquanto isso, vão-se embora as últimas economias restantes da aventura anterior.

Mas então chega o sonhado salário! Chega mesmo? Chega “quebrado” e mal paga os custos que tenho para trabalhar. Nem quero perder meu tempo comentando sobre isso, afinal… levei um tempo para entender exatamente o que acontecia e decidi jamais pisar novamente nesse tipo de consultoria. Com os últimos recursos financeiros que me restavam, paguei para trabalhar. Que lindo!

Eis que surge um projeto para alguém que provaria ser amigo e resulta num contrato que me salvaria ao menos com as contas mais básicas. Os ganhos tendem a crescer, mas por enquanto ele mesmo precisa obter um crescimento para a empresa dele. Certamente crescerá, ao que depender de mim pela infraestrutura e dele por todo o trabalho dele. Pelo menos, por enquanto, sem luz, sem telefone e sem comida eu não fico. Obrigado, meu amigo!

Você pode estar se perguntado se não procuro um “bico”, um “freela”. E deverei te responder: sem dinheiro para pegar ônibus fico limitado as redondezas numa região que, devido a tal crise, já perdeu metade das empresas. E mais… já ouviu falar em depressão?

 

Família e amigos

Se nessa situação estivesse somente eu… estava bom. Mas não é bem assim, e, por motivos diversos, embora semelhantes (crise, desemprego, desespero), a família (toda a família) enfrenta tempo perturbador. Precisei abrigar, mesmo sem nem ter direito o que comer, um membro da família e depois outro. Se não existisse uma união, utilizando a palavra que mais cabe, já estaríamos todos completamente fodidos. É muito óbvio, mas somente entendemos com toda profundidade quando realmente precisamos entender: não há bem mais valioso que a própria família. E faço questão de cultivar.

Nem mesmo sei explicar como tenho conseguido, mas até agora não deixei de pagar o curso de cabeleireiro para que minha esposa tenha um futuro mais promissor do que o telemarketing. Mesmo nada querendo fazer além de passar os dias reclamando e enxugando minhas lágrimas, no momento estou ajudando meu irmão com seu portfólio para que sua situação também melhore. E choro de alegria (é… ultimamente tenho estado muito sensível) quando alguém da família consegue um trabalho qualquer ou uma entrevista de emprego.

Enquanto isso, os amigos abandonei. Isso é terrível, eu sei, mas não tenho condições de me encontrar com eles. Não tenho condições nem mesmo de visitar minha própria mãe, afinal o próprio deslocamento custa. Como vou dar prioridade, quando consigo algum dinheiro, a outras coisas que não sejam visitar minha própria família ou ir a uma entrevista de emprego?

É um tempo difícil que muito me incomoda, pois vejo muitos amigos na mesma situação. Somente entende como é quem já viveu isso, mas somos todos obrigados a conviver com a raiva fornecida por outros amigos que acreditam que não estamos fazendo o suficiente. É aquela clássica pergunta: “Por que você não aproveita o tempo livre (sic) para desenvolver alguma coisa ou criar seu próprio negócio?”. É uma sacanagem fazer uma pergunta dessas. Como se começa o próprio negócio se não tem nem pão com manteiga para comer? Como se desenvolve algo novo enquanto se busca desesperadamente uma forma de pagar as contas para não ficar sem luz, telefone, água, gás e comida? Os amigos não entendem… e não podemos culpa-los, afinal eles simplesmente não entendem o tamanho da agonia, o constante desespero, o tamanho da descrença, o quanto a desmotivação prejudica a capacidade de raciocínio e a vergonha que nos domina.

Sim! Vergonha! Vergonha perante a família, vergonha perante os amigos, vergonha de nós mesmos. Uma vergonha que poderia ser afogada com um simples “bom dia”, um mínimo de compreensão e um qualquer apoio no formato de “você vai conseguir, você vai sair dessa”.

É quando descobrimos que, na verdade, tudo não passa de um jogo de interesses. Amigos? Até tenho… e eles aparecem onde menos se espera. É um conhecido que te ajuda a “espalhar” o currículo ou alguém que ainda conversa contigo mesmo sabendo que está mergulhado em desespero. São raros os amigos que estão além da própria família. E esses amigos devem ser cultivados, pois são capazes de te estender a mão sem qualquer interesse próprio, são transgressores de nossa própria natureza fabricada adquirida num mundo onde tudo, inclusive as amizades, estão ligadas ao dinheiro.

 

A solidão

Embora tudo isso seja muito desesperador, acredite: nada nos proporciona maior aprendizado do que essa solidão. É praticamente impossível de se dizer o quanto tenho lido e o quanto tenho observado. Quando deixamos a vida cotidiana a qual estamos acostumados, nada nos resta além da contemplação.

Começamos contemplando o que estamos deixando de ter, depois contemplamos quanto valor atribuímos a coisas banais que adquirimos ao longo da vida, depois contemplamos nosso próprio desespero. É então que começamos a transcender essa vida inútil que levamos acreditando que isso tudo é uma grande maravilha. Contemplamos nossos sonhos, contemplamos nossas próprias atitudes, contemplamos a ignorância que nos acomete e a que nos cerca, contemplamos, contemplamos e contemplamos.

E então começamos a analisar e a entender as interações que temos com o ambiente ao nosso redor, os sistemas aos quais estamos submetidos, os laços de amizades ou interesses que temos. Passamos a entender a paraconsistência das relações humanas e finalmente percebemos que nos tornamos melhores enquanto estamos sós para depois podermos ofertar maior compreensão e sabedoria a vida em sociedade.

Essa solidão que inicialmente nos machuca, acaba por se tornar nossa maior aliada no próprio desenvolvimento e corremos o constante risco do vício, pois, quando o que nos resta é somente observação e raciocínio, passamos a ter medo de deixa-los de lado para voltar ao mundo das aparências e ilusões. As contas atrasadas somente continuam a nos preocupar se houver alguém que de nós dependa. O quanto se ganhará de dinheiro numa oferta de emprego deixa de fazer sentido desde que seja suficiente para que se sustente a vida. E a própria vida deixa de fazer sentido se não for para oferecer aprendizado. Os sonhos mundanos se dissolvem.

É nessa solidão que aprendemos a realmente contemplar e compartilhar as alegrias e sofrências tanto nossas quanto alheias. Aprendemos que, embora estejamos todos unidos, o desenvolvimento coletivo só pode existir se houver um desenvolvimento individual. Aprendemos, também, que o desenvolvimento de todos é uma responsabilidade da qual compartilhamos. E aprendemos que, por mais doloroso que pareça, todos aqueles que conhecemos somente terão acesso a esse conhecimento quanto também passarem pelo sofrimento ao qual acabamos submetidos. Triste, somente, é sabermos que muitos simplesmente não suportariam. Mas é nossa, após termos acordado e aberto os olhos para ver o que realmente é a vida, a responsabilidade de ajuda-los quando precisarem ou de ajuda-los a não cair nesse sofrimento se ainda não estiverem preparados para suporta-lo.

É após um longo período de solidão que aprendemos que nossa vida nada vale se não pudermos utilizar, ofertar e compartilhar o conhecimento que somente a solidão nos proporciona. Não há livro que nos ensine e nem meditação que nos ilumine, somente a experiência e muita contemplação nos fornece tal sabedoria. É na solidão que descobrimos o verdadeiro valor da comunhão.

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Um comentário sobre “Retrospectiva pessoal 2016

  1. Grande Miniero, saudações!

    É comovente como escreve, sobretudo como consegue transcrever em palavras afetos tão subjetivos – e em certa medida “líquidos” – que transmutam nossa condição existencial. Sinto sua falta nas aulas: as piadas, os papos filosóficos, as reflexões que de alguma forma mudavam a grande estrutura moral que nos cerca. Talvez não tenha sido um bom amigo nesse sentido, de não manter contato.
    Já que não pode ir até seus amigos, acho justo que possamos ir até você, e nesse final de ano, bebemorar a solidão, que como um moinho, tritura nossos sonhos mesquinhos e torna a ilusão em pó!

    Curtido por 1 pessoa

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