Para poucos

… pois são poucos os que entendem e são ainda menos os que percebem.

Existe um lugar, talvez lugar não seja o termo correto, onde todos estamos… de onde todos viemos e para onde todos voltamos. Existe uma vida muito maior do que essa e existe uma entrada e uma saída. E existe algo que poucos notamos. É como uma espécie de exercício, uma pequena parte de quem realmente somos, somente um breve intervalo de nossas verdadeiras vidas. Existe uma vida que todos vivemos nesse outro lugar onde muitos de nós já nos encontramos.

Já sentiu saudades de uma pessoa que está ao seu lado? Já se lembrou de alguém que nunca conheceu? Já sabia quem era uma pessoa que acabara de encontrar? Já teve uma clara lembrança de alguma situação similar que nunca viveu? Já aconteceu comigo… e acontece sempre.

Não somente para encher página darei três rápidos exemplos:

  1. Num dado momento de minha vida, olhei para minha mãe e senti algo completamente diferente. Não tenho uma habilidade nata de me ligar a pessoas (talvez algum dia, em outro post, explique isso) e continuo não tendo, salvo por raríssimas exceções… algumas pessoas com as quais aprendi que tenho uma ligação muito maior do que até mesmo essa vida. Eu já a conhecia de uma forma muito diferente, de muito além das dificuldades dessa vida. Lembrei de abraços que trocamos em ocasiões que nunca vivemos, de sorrisos que nunca demos e de dificuldades que nunca tivemos. Não era essa vida, mas também não era muito diferente.
  2. Quando conheci minha esposa e sua irmã, lembrei imediatamente de quando nos conhecemos, ainda crianças, numa festa que, na verdade, nunca aconteceu no prédio em que eu morava. Eu sabia os nomes delas e lembrava de termos vivido juntos momentos que nunca aconteceram, mas que não estavam distantes dessa realidade. Lembrava de ter estado com elas numa casa de praia da tia delas que eu ainda nem tinha conhecido… éramos muito amigos. E vivo com saudades desse tempo que nunca tivemos.
  3. Uma vez, desiludido com minha situação financeira, na estação do Brás, parei para pensar um pouco. Me apoiei num muro e fiquei contemplando o inexistente movimento de uma rua que ali em baixo passa e tive o impulso de tentar pegar minha aliança que tinha acabado de cair do meu dedo. Só que não uso aliança, mas me lembro perfeitamente dela caindo. E lembro-me de ter ficado profundamente triste, pois a aliança era a única coisa que me fazia lembrar sempre de uma esposa que me deixava somente a saudade… a mesma esposa com quem ainda vivo.

Há uma outra vida maior do que essa, composta por muitas outras “pequenas vidas” que vivemos. É como se estivéssemos presos a um ciclo onde partimos e voltamos para viver tudo novamente, mas de uma forma diferente… no mesmo intervalo de tempo, nos mesmos lugares.

Já senti saudades de lugares que nunca nessa vida frequentei e tive de passar por eles apenas para constatar que realmente existem. Já senti falta de pessoas antes mesmo de conhece-las. E me lembro constantemente de momentos que nunca vivi.

Entendi que nada do que deixamos aqui importa, não existe um legado que não seja mera ilusão… uma ilusão que é somente temporária. Mas que quem somos e como vivemos carregaremos para sempre nessas outras pequenas vidas… e que isso, além do amor que cultivamos e dos laços que desenvolvemos, é tudo o que temos.

Nada mais importa.

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2 comentários sobre “Para poucos

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