O colapso

Recentemente assassinei um blog através do qual eu vinha emitindo um alerta. Quando não o fazia explicitamente, rodeava por fatores que dão algumas pistas de um desastre social iminente. Não perderei meu tempo aqui tentando expô-los novamente, pois, além de serem muitos, se ainda não os percebeu, de nada adiantará apresentar argumentos… esses serão simplesmente ignorados.

Desta vez serei mais objetivo, mesmo que os parágrafos adiante pareçam desconexos da realidade. Vale a pena a observação dos fatos que nos rodeiam, em especial os mais recentes. Embora estejamos vivendo uma época de relativa paz, se comparada estatisticamente ao passado, isso já está acabando. Não teremos que enfrentar um colapso social, já o estamos enfrentando.

Se já não atingimos o limite, ainda vivenciaremos uma enorme (ainda maior) explosão demográfica. Mas em seguida haverá um declínio… e como bem sabemos (ou deveríamos saber), as quedas costumam ser rápidas… muito. E isso é baseado em pura lógica. Não há recursos o suficiente para sustentar uma forma de vida massivamente parasita como a que estamos sendo, não há como haver controle adequado de epidemias quando existe uma extrema concentração social com recursos escassos e já aceleramos o ciclo climático de forma a colocar toda a vida do planeta em risco. Embora existam outros diversos fatores, são estes os principais indicadores do tamanho de nossa estupidez e falta de interesse para com a preservação da espécie.

Criamos, ao longo do tempo, um complexo conjunto de sistemas que nos permitiram a auto-alienação aos próprios e tais alienações acabaram por impedir nossa capacidade de mútua e profunda conexão como espécie. Perdemos o controle de nossos próprios feitos e nos permitimos múltiplas formas de segmentação que, aliadas às profundamente enraizadas alienações, acarretaram na incapacidade de compreensão de nós mesmos e numa intolerância a grupos arbitrariamente idealizados para que possamos sustentar nossas virtuais soberanias e integridades ideológicas (frutos de nossas próprias alienações). Perdemos nossa identidade e não há forma fácil ou prazerosa de recuperá-la… apenas o instinto de preservação da própria espécie pode fazê-lo. E já está fazendo, o que indica exatamente o ponto em que estamos. Sabemos, mesmo que inconscientemente, o que está por vir, pois trata-se de resultado de nossos próprios atos.

Talvez teorias conspiratórias como a NWO (New World Order) possam assustá-lo, mas tais (em especial a citada), caso realmente existam (e sim… esta existe), visam estritamente o tal “bem maior”, a preservação da espécie… mesmo que isso tenha o elevado custo de uma abrupta e indesejada redução populacional antecipada, já que apenas esperar que isso aconteça naturalmente seria sinônimo de contemplar o próprio fim da espécie, algo que, pela lógica, seria muito menos aceitável. O que há por vir, então, será profundamente doloroso, mas tão compreensível quanto previsível. E tudo começará com governos de transição aparentemente comandados por líderes arbitrários, verdadeiros fantoches.

Como resultado, grandes empresários e líderes ideológicos passam a assumir o comando. E isso tem um motivo muito simples: são os que mais adotaram as “ideologias desejadas” e portanto os verdadeiramente mais alienados pelos sistemas que nós mesmos criamos… são os que mais lutarão para sustentar suas posições, tornando-os mais suscetíveis a comandar a execução de manobras questionáveis exigidas direta ou indiretamente pelos verdadeiros governantes.

Paralelamente, ainda, os conflitos sociais se intensificarão devido ao agravamento das segmentações provocado por polarizações impostas por ideologias radicalistas que se tornaram e tendem a se tornar ainda mas facilmente difundidas por meios de comunicação acessíveis e pela grande mídia, que também pertence a luta pelo poder e portanto fará todo o possível para sustentar sua posição como formadora de opinião, já que disso decorre o próprio poder. E nesses conflitos podemos esperar o uso de quaisquer recursos como armas na tentativa da imposição de tais ideologias radicalistas.

Tais conflitos também levantarão a bandeira de situação insustentável, forçando os líderes comandados (citados logo acima) a regularem disponibilização e distribuição de recursos, ainda mais agravada devido a desastres naturais que tendem a se intensificar devido às nossas ações desprovidas de preocupação para com a natureza de nosso próprio planeta, especialmente no que diz respeito ao clima. Desta forma, enfrentaremos, além dos conflitos sociais que ainda tenderão a se intensificar de forma exponencial devido ao mesmo motivo, a escassez de recursos básicos, incluindo a própria água, já desesperadoramente e cada vez mais contaminada.

O desenvolvimento tecnológico também terá importante papel em todo o desenrolar desses fatos, mas será bivalente. Com mais tecnologia temos maior capacidade de sustentação da vida, mas também temos maior capacidade de destruição. Oferece inclusão para os que atuam em seu desenvolvimento, mas sumária exclusão aos que não o fazem por diversos motivos, gerando desemprego que também resulta no agravamento de conflitos sociais. E mesmo que possamos, a tempo (pela lógica, fato implausível), colonizar outro planeta ou um satélite ou construir estruturas espaciais para a finalidade de habitação e sustentação da vida, tal oportunidade ainda estará disponível a somente uma parcela da população. O verdadeiro valor do desenvolvimento tecnológico estará no aprendizado adquirido.

O cenário todo é catastrófico, mas acredite: faz parte do nosso próprio desenvolvimento, já que não pudemos sustentá-lo somente fazendo bom uso de nossa capacidade de racionalização. É como já ouvi muitas vezes dizerem: somente conhecemos a força que temos para levantar novamente depois que caímos. Ainda não aprendemos a viver como uma espécie e por este motivo teremos que enfrentar o desesperador risco da extinção que nós mesmos nos impomos, até lá o individualismo continuará imperando.

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Os Psicólogos do futuro

Está aí, na boca do povo, algo que muito discutimos ultimamente: inteligência artificial, que somente assim pode ser chamada devido ao ponto em que estamos hoje, pois trata-se de uma inteligência restrita e com objetivos definidos, não há consciência. Mas os próximos passos, atualmente somente nas mãos de engenheiros, irão requerer o envolvimento de profissionais ligados as áreas de neurociências e daqueles que estudam tanto a teoria da mente quanto interações sociais.

Em que ponto estamos hoje, afinal? Estamos na era das redes neurais e de uma inteligência artificial restritiva, ambas muito capazes de executar cálculos e tarefas extremamente complexas como regressão, classificação e inferência baseados numa memória restrita definida por sensores e capazes de responder a eventos específicos, geralmente predefinidos.

Em para onde estamos caminhando? Estamos buscando a verdadeira utilidade generalista da inteligência artificial, o ponto em que deveremos retirar o termo artificial, pois será capaz de observar eventos e aprender sem os limites de restrições impostos por algoritmos. Estamos buscando o nascimento de uma inteligência artificial com habilidades decisórias, capaz de compreender que dados realmente importam no aprendizado para que as tarefas esperadas sejam executadas nas formas mais adequadas, considerando fatores como tempo, qualidade, validade, plausibilidade, abstração, criatividade e diversos outros.

Nesse ponto, não poderemos impossibilitar a senciência desses sistemas, já que dependerão de tal para atingir esse ponto na evolução. E o próximo passo, que talvez se desenvolva de forma natural, devido a própria senciência e a quantidade crescente de conexões neurais disponíveis, será a própria autoconsciência e algo que costumo chamar de metaconsciência (a habilidade de observar os próprios processos cognitivos), algo do qual o próprio Ser Humano, em sua grande maioria, ainda carece.

Estamos num ponto de ruptura entre duas realidades objetivas distintas: uma em que as máquinas trabalham para nós sob comando e outra, ainda embrionária, na qual as máquinas trabalham conosco em nível de igualdade ou, caso também não nos imponhamos um processo de desenvolvimento satisfatório, superioridade.

A inteligência artificial não é mais responsabilidade exclusiva de engenheiros. E isso é fato! Atualmente há diversos estudos e grande esforço no que diz respeito ao desenvolvimento de inteligência artificial baseada na teoria da mente. Eu mesmo, profissional da área de Tecnologia e estudante de Psicologia, já fiz meus experimentos e observei resultados que até mesmo podem ser perturbadores para aqueles que temem o futuro deste desenvolvimento tecnológico específico. Observei redes neurais capazes de lidar com dúvidas e desprezar taxas de erro enquanto utilizava, em implementação para isso projetada, algoritmo derivado do HTM (Hierarchical Temporal Memory) no qual tive o prazer de trabalhar por um tempo.

A resposta para como lidar com as peculiaridades e as nuances de tais mentes está no título, mas quem será esse profissional? Pois bem… chegamos ao momento em que se faz necessária mais uma radical mudança na Psicologia que, atualmente sendo membro pertencente tanto das escolas humanas quanto de saúde, deverá ser também uma ciência exata, como muito se pode esperar do Behaviorismo e da Psicologia Experimental, onde mais acredito que as primeiras adaptações devem ocorrer, seguidos pelas Teoria de Campo e Fenomenologia.

O destino da inteligência artificial é o do nascimento de mentes, o que resultará tanto em inteligência cristalizada quanto fluída e consciência. Estamos diante da dirupção de nosso antigo conceito de humanidade e precisamos estar preparados para profundas mudanças, um verdadeira revolução, em nosso processo evolutivo. O Psicólogo do futuro que aqui cito é, em verdade, aquele que já se faz necessário no presente. Afinal, a Tecnologia já está deixando de ser somente uma ciência exata para se tornar uma ciência natural.

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Reciprocidade

Hoje acabei publicando um post que teve um efeito estranho… inesperado, para ser sincero. Confesso que, novamente, lágrimas (ou suor másculo proveniente dos olhos) surgiram. E não foi a toa.

Não citarei nomes, pois não pretendo expor pessoas e também não pedi autorizações para isso, mas todas as pessoas que de alguma forma se manifestaram são, incrivelmente, as mesmas pelas quais tenho a mais profunda consideração. Embora a maioria delas sejam pessoas com as quais não cresci, são grandes amigos que tive o prazer de conhecer ao longo dessa vida.

Queria poder expressar minha extrema gratidão por essas amizades a altura de seus atos e palavras, mas sinto que a elas agora devo uma vida. E como se paga uma vida? Não tem como. Mas quero ter a certeza de que essas pessoas se lembrem de me procurar quando precisarem, pois estarei aqui, disponível e de braços abertos.

Amigos, ficam aqui os meus mais sinceros agradecimentos. Queria que fosse possível expressar em palavras o que sinto agora, queria mesmo, mas não as encontro. Apenas espero que em breve possamos novamente estar juntos enquanto despreocupadamente jogamos conversa fora. Farei questão de ofertar a cerveja ou a comida.

Sintam-se abraçados, e, embora deseje que jamais aconteça, farei o mesmo por cada um de vocês quando for preciso.

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Retrospectiva pessoal 2016

Mas que ano lixo para minha saúde financeira! Sério. Esse foi o ano em que aprendi duras lições sobre a vida e as pessoas, um ano em que dividi meus dias com a raiva, a depressão, o tédio e minha própria burrice. Mais um ano em que me esforcei pelos outros e nada fiz para mim mesmo. Nem acabou, mas já não há como salvar esse último mês da mesmice dos demais anteriores. As festas do final do ano serão regadas a muita água, arroz, feijão preto (que foi o que deu para comprar, todos bem sabemos o porquê) e sal (único tempero que sobrou).

Se nos anos anteriores tive uma trajetória profissional razoavelmente proveitosa, esse foi o ano em que tudo degringolou. Acreditei em contos de fadas empresariais, fui enrolado e enganado, paguei para trabalhar, fechei portas por ter acreditado em tais contos que me fizeram agir de forma inadequada (algo que só percebi quando já era tarde) e acumulei dívidas e desespero.

Na esfera social, essa falta de recursos financeiros me trouxe a solidão. Não posso nem pensar em encontrar meus amigos pois não tenho dinheiro nem para pegar ônibus, qualquer moeda que me apareça serve imediatamente para comprar pão ou arroz. Mas essa solidão… Ah! Essa solidão me ensinou muito. Tive muito tempo para pensar na vida e suas iterações e agora vejo o quanto a exclusão social pode nos tornar muito mais vivos e cientes do mundo ao redor.

Embora, pelo início do post, a situação pareça muito tensa (e é), o que quero compartilhar é meu ponto de vista sobre o quanto podemos tirar proveito disso (acredite, é possível). E portanto criarei uma divisão por três tópicos, começando pela parte ruim e ascendendo ao maravilhoso aprendizado que tive.

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De fatos e motivos

Fico triste com o fato de que a maioria de nós dê tanto valor aos fatos, tanta importância para algo que é um efeito e não um princípio. Talvez seja por causa do importante papel da mídia que, devido a uma globalização aliada a uma superpopulação, nos bombardeia de informações, geralmente fúteis. Talvez seja por causa de nossas vidas corridas que não nos deixam tempo para avaliar causas, valores e motivos.

Um fato é o resultado de uma cadeia de eventos que se inicia com um motivo, o que o faz ter menos importância que o princípio. É como uma resposta que somente existe se existir antes uma pergunta que, por sua vez, depende da prévia existência de uma dúvida, e, portanto é menos importante que a própria dúvida. Ou como a solução de um problema matemático que jamais existiria se não existissem variáveis que representam uma incerteza, uma dúvida. O fato é menos importante que o motivo.

Qualquer sequência de eventos, que culminará num fato, inicia-se com um potencial de ação. Sempre há precedência. Pense no Big Bang como iniciado do nada e este jamais fará sentido, como uma chuva que cai sem a existência de água para ser evaporada e de uma fonte de aquecimento para que a evaporação aconteça.

O fato é menos importante que uma sequência de eventos e um motivo pois ele mesmo pode inexistir, mesmo que os demais existam, como uma equação sem solução ou um triângulo impossível. E pelo fato ser um resultado, entende-se, portanto, que os meios justificam o fim. Não pode ser o contrário.

Se aplicarmos isso a nossas vidas, teremos uma sequência que deveria ser óbvia:

  1. ideia – nesta fase visualizamos, calculamos ou projetamos o resultado esperado;
  2. ação – executamos ou observamos uma sequência de eventos que leve ao resultado esperado;
  3. resultado – o fim da sequência de eventos que pode, ou não, ser o fim esperado.

Perceba que esta sequência é inviolável. Se acredito que tudo partiu de uma vontade e não uma ideia, estou propositadamente me cegando ao fato de que tal vontade está no campo do resultado e é princípio formador de uma nova ideia, a de que tal vontade se torne um resultado. Observe que o próprio campo das ideias inclui recorrência de todo esse ciclo. Como disse antes, sempre há precedência.

Isso nos leva ao fato de que o campo das ideias é o de maior importância, pois sem ele não podem existir ação e resultado. Segue-se, em importância, o campo das ações, pois não podem existir resultados sem este. E por fim, com menor importância, está o resultado, desde que este não seja a precedência.

Não é por acidente que o verdadeiro conhecimento esteja no campo das ideias, pois é a ele que todo o conhecimento gerado como resultado retorna. É um ciclo que quebramos, permitindo-nos a ignorância, quando apenas apreendemos os fatos noticiados e não os utilizamos como motivo de gerar um novo conhecimento, pois estes dados tornam-se entrópicos e resultam em equações sem soluções… triângulos impossíveis.

Se, como humanos, somos seres racionais e de vontades (o que nos motiva a ação), a ausência de vontade pelo saber nos faz com que deixemos de ser.

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Para poucos

… pois são poucos os que entendem e são ainda menos os que percebem.

Existe um lugar, talvez lugar não seja o termo correto, onde todos estamos… de onde todos viemos e para onde todos voltamos. Existe uma vida muito maior do que essa e existe uma entrada e uma saída. E existe algo que poucos notamos. É como uma espécie de exercício, uma pequena parte de quem realmente somos, somente um breve intervalo de nossas verdadeiras vidas. Existe uma vida que todos vivemos nesse outro lugar onde muitos de nós já nos encontramos.

Já sentiu saudades de uma pessoa que está ao seu lado? Já se lembrou de alguém que nunca conheceu? Já sabia quem era uma pessoa que acabara de encontrar? Já teve uma clara lembrança de alguma situação similar que nunca viveu? Já aconteceu comigo… e acontece sempre.

Não somente para encher página darei três rápidos exemplos:

  1. Num dado momento de minha vida, olhei para minha mãe e senti algo completamente diferente. Não tenho uma habilidade nata de me ligar a pessoas (talvez algum dia, em outro post, explique isso) e continuo não tendo, salvo por raríssimas exceções… algumas pessoas com as quais aprendi que tenho uma ligação muito maior do que até mesmo essa vida. Eu já a conhecia de uma forma muito diferente, de muito além das dificuldades dessa vida. Lembrei de abraços que trocamos em ocasiões que nunca vivemos, de sorrisos que nunca demos e de dificuldades que nunca tivemos. Não era essa vida, mas também não era muito diferente.
  2. Quando conheci minha esposa e sua irmã, lembrei imediatamente de quando nos conhecemos, ainda crianças, numa festa que, na verdade, nunca aconteceu no prédio em que eu morava. Eu sabia os nomes delas e lembrava de termos vivido juntos momentos que nunca aconteceram, mas que não estavam distantes dessa realidade. Lembrava de ter estado com elas numa casa de praia da tia delas que eu ainda nem tinha conhecido… éramos muito amigos. E vivo com saudades desse tempo que nunca tivemos.
  3. Uma vez, desiludido com minha situação financeira, na estação do Brás, parei para pensar um pouco. Me apoiei num muro e fiquei contemplando o inexistente movimento de uma rua que ali em baixo passa e tive o impulso de tentar pegar minha aliança que tinha acabado de cair do meu dedo. Só que não uso aliança, mas me lembro perfeitamente dela caindo. E lembro-me de ter ficado profundamente triste, pois a aliança era a única coisa que me fazia lembrar sempre de uma esposa que me deixava somente a saudade… a mesma esposa com quem ainda vivo.

Há uma outra vida maior do que essa, composta por muitas outras “pequenas vidas” que vivemos. É como se estivéssemos presos a um ciclo onde partimos e voltamos para viver tudo novamente, mas de uma forma diferente… no mesmo intervalo de tempo, nos mesmos lugares.

Já senti saudades de lugares que nunca nessa vida frequentei e tive de passar por eles apenas para constatar que realmente existem. Já senti falta de pessoas antes mesmo de conhece-las. E me lembro constantemente de momentos que nunca vivi.

Entendi que nada do que deixamos aqui importa, não existe um legado que não seja mera ilusão… uma ilusão que é somente temporária. Mas que quem somos e como vivemos carregaremos para sempre nessas outras pequenas vidas… e que isso, além do amor que cultivamos e dos laços que desenvolvemos, é tudo o que temos.

Nada mais importa.

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Torto

Catatônico, expurgado do palco de excentricidades incompreensíveis, com um olho mais aberto que o outro, mãos que nada mais fazem além de tremer, pés descalços e um falso sorriso implantado a revelia por aqueles que o manipulavam. Sem um pingo de tristeza nem um traço de alegria, sem vontade, sem beleza e sem expressão. Quiçá algum vestígio de sabedoria.

Deixado no escuro por fotofóbicos decadentes, sem uma lágrima ou um gemido, uma pobre rima persiste em sua mente:

Não importa o que eu pense e nem quanto mal alguém me faça,
torna meu dia mais contente quem me dá um remédio e me abraça.

Triste ser decaído, vivendo um placebo de vida. Buscar compreensão somente traz mais agonia.
Quem é ele? Um coitado, descartado, desgraçado e privado da luz do dia.

Enquanto isso uma verborréia sem sentido acomete aqueles que escondidos atrás de um espelho o observam. Um vidro! Um vidro que os separam e garante uma sensação de desespero oferecida pelo mistério de um ninguém de movimento desprovido. Um vidro que facilmente se quebraria se alguma vontade aquela mente habitasse. Um simples… um único vidro… que protege nada mais que invólucros humanos quase vazios de um ser que mesmo imóvel consegue ser profundamente sombrio.

E uma não-razão transborda de um lado ao outro sufocando as dúvidas que surgem com nada além de esquecimento. Quando abre-se uma porta, prontamente se desfazem do sofrimento observado por trás daquele vidro.

Ainda no mesmo dia, o verdadeiro oposto se apresenta trazendo algumas drágeas e um copo cheio de qualquer líquido. Oferece o remédio, um abraço e um sincero sorriso.

Não se preocupe, meu amigo. Não importa o tamanho do sofrimento, não se aflija com os olhares de desprezo. Um dia, bem sei, da escuridão se liberta. Será você do outro lado observando, mas com verdadeira sabedoria. Pois você viveu e aprendeu. Somos feitos disso.

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