Palavras em jogo

Sem apresentar uma palavra entro num jogo… um jogo de palavras, palavras em jogo. Já entro devendo, mas ainda não dou minha palavra. Passo a vez e fico de olho… quem muito fala pouco entende. Melhor dever do que pagar a mais. Penso numa estratégia, mas dúvidas invadem minha mente ao observar um distinto jogador.

Qual a sua palavra? Ela está em jogo? Você está jogando com sua palavra? Estão jogando com ela? E quanto ela vale? Pagam por ela? A minha não vendo…

Não a vendo, não a entrego. Nem mesmo dou minha palavra enquanto estou num jogo que não entendo. Faço o mesmo que os outros: roubo uma ou invento. E com uma estratégia preparada, mesmo sem ainda entender completamente o jogo, sigo orgulhosamente vencendo.

E então a primeira partida acaba. Todos se recolhem em silêncio enquanto se preparam para a próxima. Em seguida o jogo ficou mais tenso: devemos continuar com a mesma palavra, devemos sustenta-la, mas jamais poderemos repeti-la novamente. Minha estratégia é boa e continuo vencendo, mas as partidas se tornam cada vez mais longas e sofridas.

Pouco a pouco precisamos descrever, explicar e analisar nossas próprias palavras. Precisamos provar que possuímos completo e profundo entendimento sobre elas. E os jogadores vão se perdendo, eliminados partida após partida até que restemos somente dois.

Em minha frente um ser honesto que me espanta sustentando perfeitamente sua palavra maldita, falada errada e com pouca significação aparente me informa que não há mais juízes e que o jogo será ganho por aquele que puder se lembrar de todas as explicações e argumentos das partidas anteriores e for capaz de dar ao outro a palavra sem que exista arrependimento.

Pois bem… montei uma estratégia perfeita, cheguei ao final do jogo e ganhei! Com uma palavra que não era a minha, eliminei os honestos do jogo, privando-os da vitória e garanti meu lugar que acredito ser de direito: o de campeão. Afinal… era eu o mais esperto de todos.

Confesso que o jogo todo foi muito difícil, mas venci. O que me complica, agora, é o fato de que no próximo jogo ninguém mais aceitará minha palavra, então não poderei mais participar. Afinal, o que eu acreditava ser um jogo de palavras era, na verdade, uma exposição de caráter.

Podia ter sido honesto. Eu sei que eu perderia, mas estaria livre do arrependimento, ainda teria outras oportunidades de poder dar minha palavra sem tentar ser melhor que os outros e continuaria sendo aceito nesse grupo que se reúne constantemente apenas para se verem e se ajudarem.

Há de se pensar, ainda, em lealdade, honestidade e sinceridade. Há de se entender que não há um jogo e que, se realmente houvesse, só realmente ganha quem conhece as regras. Há de se pensar nesse sentimento de superioridade. Há de se evoluir.

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[mente de mente] Confundimentos

Sentimentos são confusos na maior parte do tempo. Talvez seja essa a função principal de sentir: confundir. Se hoje estou triste por um motivo, amanhã posso estar feliz pelo mesmo. Sentimentos são confusos e na maior parte do tempo não os entendemos.

Sentimentos são feitos de partes de nós mesmos, seres confusos por natureza. Pensamentos invertidos, idéias trocadas, lógica esquizofrênica, preposição no objeto direto. Pre-po-si-ção no objeto direto que o transforma em indireto… uma pequena palavra que tudo muda. Uma ideia exposta em letras, um movimento, um sentimento.

E tudo lentamente muda de forma rápida, uma viagem expressa ao longo de anos que vira memória de segundos, uma corrida ao banheiro no meio de um dia inteiro. In-tei-ro, como já me senti um dia, como jamais me aceitarei novamente depois de abrir os olhos da mente. Inteiro como o dia que se divide ao meio.

Sentimentos nos carregam ou nos empurram em direção ao que não planejamos, pois não os escolhemos. São a razão do irracional, as asas do elefante, o bico do bezerro e o choro da gangorra… um holofote de sombra, um estalo de chicote.

Nos fazem correr ou simplesmente parar, pensar ou gritar, sobreviver ou nos matar. Nos dão a chance de entender ou ignorar. Sentimentos nos fazem porque nós fazemos sentimentos.

Se um sentimento pode me fazer entristecer e chorar, também pode me fazer crescer e explorar. Não sentir é impossível, mas numa onda de sentimentos podemos escolher a qual nos agarrar.

Texto resgatado do finado blog mente de mente.

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[mente de mente] Religiosa razão

Vem de certo uma maresia em desespero ao alento de uma mente entorpecida por um sucinto ritual de heresia senil e vingativa perante inócuo outrem.

É desperto, mas lacaio de sociedade avessa ao tenro e débil senso de unidade envesgado por locutores impostores de dúbia sensibilidade e deficitário saber que sustentação encontram ao desbocar seus contos de ascensão equívoca ao supremo poder que se acredita florescer em campos obscuros de velados ressentimentos ao que realmente se pode ser.

Tudo julga enquanto inflama com prosas bem providas de engodos que salientam alheia ignorância desprovida de habilidade para entender capciosa jornada ao apogeu de estruturado iluminismo ideológico descabido ao próprio ser.

Não há de ser quem não se pode e não há de ver o que não se reflete, nem que se guarde em memória ou se abrigue em fantástica estória, nem que se saiba e que diga o que não se repete. Não há uma verdade se não há trajetória.

Texto resgatado do finado blog mente de mente.

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O mais correto dos corretos

Com um discurso extraído da própria cloaca, uma pose de herói com cabelos lambidos pelo próprio tinhoso, uma autoconfiança de provocar inveja nos mais proeminentes sofistas e muito esperma na língua para engravidar mentes ainda virgens… ele está lá, disponível atrás de uma armadilha plantada, esperando a próxima vítima (talvez você) para sucumbir diante de suas idéias revolucionárias e conclusões brilhantes a respeito de um assunto do qual leu as manchetes… AS MANCHETES, somente.

Suas vítimas seguem um padrão de preguiça mental provocada pelo cansaço de um dia de trabalho ou de uma necessidade por informações e opiniões “prontas” sobre as quais não faria sentido refletir, já que tudo chega mastigado e só falta engolir.

Prontas, eu disse! Isso mesmo: prontas! Como se aqueles que dão ouvidos fossem incapazes de raciocinar, sua missão é exatamente a de fornecer respostas provadas, quando ainda se perde tempo com esse tipo de preocupação, através de simples retórica ou exemplos selecionados ao bel prazer.

Questionar é pior que qualquer crime tipificado em qualquer código penal. Quem sabe o que faz ou o que diz não possui dúvidas… está se afogando em certezas. Tantas certezas que até sobrepujam as mentes que possuem dúvidas razas e rapidamente se convertem em especialistas após poucos minutos de exposição a uma única opinião. Um abuso de auto-imagem e viés de confirmação. Um abuso da ingenuidade daqueles que buscam respostas tendenciosas a amenizar o sofrimento provocado por uma suspeita que, em suma, não passa de uma incerteza cortejada pelo desejo de se acreditar correto e conhecedor da verdade.

Conhecedor! Um que não reconhece a própria fraqueza ao acreditar sem dúvidas, ressalvas ou desconfianças num discurso. Um conhecedor que desconhece a base dos argumentos e ignora fatos, estudos ou o que for pois julga desnecessário considerar outras variáveis. Pois no mundo não existem variações, apenas violações do correto individualmente estipulado… individualmente estipulado.

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Da lama ao caos

Certa vez um professor me disse:
– “Se você acha que a vida é feita de altos e baixos como numa senóide, então não está preparado para viver no ruído.”

Grande mestre! Notavelmente dos maiores que tive, pois depois de tantos anos lembrei-me de tal dito… bem no meio do ruído. Mas há uma outra lição oculta nesta frase que talvez não seja tão óbvia: que a negação é uma simples inversão da lógica subsequente.

Curiosamente, essa sequência de suposição e negação está diretamente conectada aos conceitos de Homo Faber, Laborans e Politicus de Hannah Arendt, pois entendo que o cruzamento das ondas de altos e baixos nessas três “facetas” resulta no dito ruído. Ao permitirmos que três senóides se fundam numa única, deixaremos que nossas vidas sigam fluxos que não poderemos controlar, já que estamos forçando uma interdependência direta entre trabalho, sobrevivência e socialização. Mas… observe o fato que se apresenta bem diante de nós: sem trabalho não há dinheiro e sem dinheiro fica difícil sobreviver e manter uma socialização.

Desculpa esfarrapada! Não é bem assim, pois essa é a explicação mais estúpida que costumamos apresentar para esconder o próprio sentimento de impotência que, em verdade, nem mesmo existe. Stephen Hawking, como exemplo, pode ser entendido (de maneira esdrúxula, claro) como um cérebro sem corpo, e, mesmo assim revolucionou nosso mundo. E pelo que me consta, no que diz respeito a labor, ele infelizmente tornou-se dependente de mãos alheias.

Voltemos a inversão da lógica subsequente graciosamente oferecida pela negação. O “não tenho dinheiro” pode ser uma simples e direta constatação ou, como costumeiramente é, uma forma alternativa de esconder a própria culpa ou dolo pela própria situação em que se encontra. Quando se usa o “não tenho dinheiro” para evitar as senóides acima ditas ou explicar o motivo central de não pode-las viver está-se evitando a percepção de que estas nem mesmo existem e são meros conceitos que criamos para nos proteger do ruído em meio ao qual vivemos.

Há outro grande ensinamento que jamais devemos nos esquecer: “do caos tudo se cria e ao caos tudo retorna”. Se não pudermos ordenar o caos para aprendermos a viver nele, somente faremos parte dele.

(O título deste post é uma referência e homenagem a dois proeminentes compositores brasileiros. São eles: Jorge du Peixe e Chico Science, que infelizmente nos deixou cedo demais mas nos concedeu obras memoráveis.)

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Sobre o que, um dia, vos deixarei

Quando à vida não mais eu pertencer, quando do mundo tiver partido, não quero ser lembrado por verbos ou feitos. Quero apenas que se espalhe o amor que pude oferecer e que assim e sem fim continue sendo.

Quando, um dia, a alguém perguntarem por minhas memórias, mesmo que esquecidas, espero que esse amor ainda possa ser sentido e que seja gratuitamente oferecido e compartilhado. Pois não deixarei lições ou feitos históricos para serem admirados, nem pretendo ser comentado mesmo que num assunto qualquer eu faça sentido. Deixarei ao mundo o que mais admirei dele e às pessoas o que mais desejo.

Mesmo que uma espada penetre meu peito partirei sorrindo com a certeza de que encoberto por tal ódio, ainda que escondido, há algo muito valioso e que toda a dor que por ventura exista no mundo possa ser esquecida num único instante de verdadeiro amor desinibido. E se houver algo que possa trazer mais conforto, que apenas seja feito.

E depois de um breve instante de pesar, espero ser completamente esquecido. Não quero ser simplesmente guardado nas lembranças dos amigos, tampouco compartilhado como memória com um desconhecido. Desejo ser maior que isso, desejo poder ser sentido. E se ao ódio esse amor que deixarei trouxer acalento, que assim e sem fim continue vivendo.

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Superfície

Imagine que sua realidade exterior (o mundo que o rodeia) é um livro publicado em três edições. Uma delas, a primeira, é quase como um rascunho, uma verdadeira bagunça, mas é onde estão todas as informações, embora desordenadas. A segunda edição, já organizada, apresenta uma lógica e uma linearidade, carecendo, para garantir inteligibilidade, de múltiplos pontos de vista e explicações. São excluídas, ainda, informações conflitantes ou que pareçam incompletas, tornando-a uma obra aparentemente mais confiável, já que isenta o provável leitor de dúvidas. E então vem a terceira edição… cheia de beleza, capa dura, impressão impecável, ilustrações aparentemente geniais e muita… MUITA… muita revisão… sintática, morfológica, lógica… muita revisão que torne a edição inteligível até mesmo aos mais leigos… pouca informação, muita ilustração e ainda mais dramatização.

Mas sabe qual é o verdadeiro problema? É que apenas lemos a introdução de um resumo do primeiro capítulo e depois passamos a nos ocupar com todos aqueles brinquedos que os próximos capítulos nos alertariam para que evitássemos. Não somente desprezamos o livro como aceitamos as opiniões de terceiros que também não o leram enquanto nos convencemos de que conhecemos todo o conteúdo das três edições… que ainda comparamos sem nem mesmo podermos imaginar quais são as diferenças entre tais.

Estamos na superfície.

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