Mutans

Quando acordar e abrir os olhos, verá que não é o único tolo, que naquele buraco há incontáveis e que todos compartilhavam um mesmo sonho. Verá que toda a luta não trouxe frutos que não fossem podres e que a impulsividade quase cegou. Perceberá que nada vê além do que está imediatamente a frente e que as palavras que entende não são de sabedoria. Perceberá que se perdeu e que ainda muito há de ser feito apenas para entender onde chegou.

Caminhará com pés descalços entre brasas e espinhos, enfrentará monstros e demônios sem ter armas, pois com estas não se faz algum bem, se perderá entre infinitos argumentos num monólogo infindável e despertará a consciência de que nunca esteve consciente.

Desmantelará as próprias crenças, questionará os próprios atos e se duvidará enquanto gradualmente se desconstrói. Se desfará entre epifanias e o entendimento de que não é quem acreditou ser. E deixará de ser.

Se refará dos cacos restantes, pequenas ideias envoltas em dúvidas que não se esclarecem. Acreditará estar diferente e ter se desenvolvido. Sentirá a mudança e deslumbrará uma diferente compreensibilidade até perceber que nada mudou.

E então a transformação começará.

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Quando nossos erros dão certo

Nossos jovens estão abrindo mão de se desenvolver e fazer o que gostam para poder trabalhar com algo que “dá dinheiro”. Deveríamos estar profundamente envergonhados e angustiados… e os motivos são vários.

Eles querem comprar smartphones, laptops, viajar para a Disney, conhecer o Camboja, experimentar cervejas diferentes, possuir roupas de marcas e um monte de outras coisas que você (ou nós), que teve o prazer de poder fazer, hoje define como supérfluas ou luxos desnecessários. Eles querem viver o consumismo desenfreado e o capitalismo canibal que você (ou nós) criou enquanto você (ou nós) os repudia por possuírem mentes fracas que se afundam no consumismo em que você mesmo (ou nós) se afundou enquanto os mantinha “na linha”, pois essa é a única opção que você (ou nós) conheceu… por puro medo de tentar ser diferente do resto de uma sociedade na qual você mesmo (ou nós) já não acreditava há muito tempo.

Eles estão aplicando a mesma fórmula que você (ou nós) aplicou no passado: fazer algo que gosta, por hobby, enquanto trabalha com algo que “dá dinheiro”.

Só posso dizer: parabéns!!!

Hoje nosso mercado é amplamente incompetente e conservador porque você (ou nós) sustenta a ilusão de que um hobby pode ser sustentado por um salário oriundo de uma atividade na qual você (ou nós) não se desenvolve adequadamente por pura falta de interesse. O importante é ganhar dinheiro para, quem sabe, ser consumido no tempo livre que talvez exista se todas as contas estiverem pagas. E não… não estarão.

Demos aos nossos jovens a falsa sensação de que poderiam escolher profissões nas quais conseguiriam se desenvolver por terem escolhido o que gostam de fazer. Como incentivo, os deixamos sem dinheiro para que possam pagar seus próprios almoços com empréstimos bancários e a possibilidade de passarem a maior parte de suas vidas pagando por uma única viagem de cinco dias, ainda financeiramente limitada, a algum lugar que você (ou nós) costuma visitar por ser uma opção economicamente mais viável.

Determinamos as opções do que eles podem escolher baseados em nossas próprias opções que foram impostas por um mercado de consumo irracional que não somente construímos, como sustentamos e empurramos goela abaixo de qualquer um que em nossa frente apareça. Consideramos loucos, burros, “cri cri”, folgados, doentes, mal educados e mimados todos aqueles que percebem que isso tudo é uma enorme perda de tempo mas que tiveram a coragem de dizer ao invés de simplesmente se adequar, como fizemos.

Com muito esforço e insistência no erro, ainda, conseguimos calar todas essas vozes. Pegamos nossa única verdadeira esperança para o futuro e a transformamos na mesma merda em que nos afundamos cada vez mais ao passar do tempo. Nos convencemos de que devemos abrir mão de nossas vidas para sustentar sonhos que tomamos por assalto e decidimos que devemos impor aos jovens a nossa própria desgraça acumulada, assim conseguimos sustentar a única coisa que conhecemos: uma vida de merda e sem utilidade.

Tudo isso, porém, nos garante profunda alegria ao vermos números que indicam aumentos em suicídios, violência, transgressões e crimes, pois podemos encher nossos peitos e proferir as geniosas palavras “a juventude de hoje está perdida” enquanto nos sentimos os reis de toda essa merda. Nos custa entender que o cheiro ruim vem de nossas próprias fezes.

Sim! A juventude está perdida assim como você (ou nós) também está! E forçar toda uma juventude a estar em acordo com nossos princípios falhos é o maior erro que podemos cometer, pois faremos com que nossos jovens sejam iguais a nós mesmos… uns merdas cheios de si.

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Lados

Lembro-me que em meu antigo blog (mente de mente) acabei, tomado por uma necessidade que não sei explicar, fazendo algumas previsões para o período entre os anos 2015 e 2018, inclusos. De uma delas, por ter sido assustadora e marcante, ainda me lembro das vívidas visões: muitas pessoas sendo assassinadas a facadas (grandes facões), especialmente mulheres e crianças, por fundamentalistas (Boko Haram).

Não me recordo de todo o texto, nem mesmo sei se ainda dele tenho cópia, mas lembro de ter visto, para próximo ao fim desse período, uma grande erupção vulcânica que servirá de marco histórico (como se pudéssemos olhar a História de cima) para muitos acontecimentos. Não sei dizer, agora, se era uma visão vívida de uma erupção real (acredito que sim) ou se era somente uma metáfora.

No caso de uma metáfora, estaria ligada diretamente a mensagem que tentei passar de que algo muito sombrio estaria se formando ou ganhando força entre 2015 e 2018, tanto em nossas mentes quanto em nossas ações, levando toda a sociedade a uma época de discórdia quase generalizada e resultando no início de um novo ciclo que pouco do que há por vir consigo entender, pois tudo o que posso ver se torna muito confuso, exceto pelo fato de termos uma humanidade vergonhosamente dividida e violenta.

Por algum motivo que desconheço, vejo muito sofrimento acompanhado de ascensão espiritual. O sentimento que tenho é o de que a grande maioria de nós deverá enfrentar um período de muita dor e profundo sofrimento enquanto muitos outros, que passaram esse período (2015 a 2018) tentando nos guiar para uma ascensão espiritual simplesmente nos deixarão para trás, provavelmente cansados e sem escolha.

Nesse período, vi ganhar muita força um movimento índigo que já começou a perder seu fôlego e desmantelar, especialmente devido a maior ascensão do charlatanismo que já pude imaginar. Virou folclore e agora todos os que acabam conhecendo o termo “índigo” se auto-intitulam ao bel-prazer, levando a uma dissolução do movimento que se formou por descrença dos próprios índigos.

Ainda continuo vendo uma guerra, que citei no mente de mente, que não envolve nações (embora uma dessas esteja por vir em breve)… uma guerra das pessoas contra elas mesmas, como se nossa realidade fora um vaso de vidro trincado finalmente se despedaçando.

Outra coisa que me lembro de ter visto: contrariando expectativas, tomaríamos o caminho contrário nas ciências e viveríamos uma involução quase generalizada ao passo que distintos grupos de pessoas passariam a desenvolver brinquedos tecnológicos visando uma completa transformação do que hoje conhecemos como Ser Humano. E então vieram a Terra Plana, o anti-intelectualismo, as experiências com o CRISPR/Cas9 e as pesquisas com interfaces que visam conectar nossos cérebros a redes neurais de inteligência artificial. Agora recriamos partes de nossos corpos em impressoras 3D e sabemos como reprogramar nossas células, conhecimento e tecnologia que se tornaram amplamente disponíveis para que comecemos nossas aventuras com as tentativas de não sermos mais simplesmente humanos, ou sermos “algo mais”… da forma mais errada possível.

O que esperarmos, então, de um ano em que acredito que os extremos serão ainda mais acentuados? Veremos tanto o pior quanto o mais belo lado da humanidade. Melhor escolhermos um “lado” antes que o “lado” que não queremos nos escolha.

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Heteroscedasticidade

O ano nem acabou, mas o próximo já começou. Do que nele podia nos aguardar, nem tudo aguardou. Se o ano foi ruim, talvez você não tenha entendido ou selecionou algo distópico para ter algo em que acreditar. O que muitos aguardavam apenas começou.

Será melhor e pior, na mais incrível dualidade. Tudo depende do verbo aplicado ao que se vê, ouve e sente. Profecias se cumprirão, profecias passarão e estaremos aqui como testemunhas de tudo aquilo que escolhermos para nos apegar ou então o que Deus dará.

Apocalipse projetado! Verdades ofertadas em doses homeopáticas lentamente nos cansam de nossos remédios. Cabeças cheias dormem menos que vazias. Percebem menos, também. Informações divergentes causam estafa. Encurralados ficamos pelos nossos próprios dizeres que não se traduzem em feitos.

O mal tem nova cor e não pecar se torna um novo pecado. Sacrilégio é a transcrição da dor enraizada por permissão e ofuscada pelo brilho esperado nos olhos do sofrido. Mas o ano, corrido, é menor que qualquer ínfimo desejo. O ano que segue é resultado do resultado que somos do anterior.

Se não machuca, deveria. Há de cicatrizar e se esvair a dor em dependência direta de permissão de decorrência. Há de se ver que ao doente cabe a cura.

O dinheiro aplicado no péssimo negócio retorna em forma de péssimo resultado. O desconhecido se revela árbitro entre pobre rico e rico pobre numa guerra de blocos e correntes. Os sonhos de uns se despedaçam enquanto os de outros se realizam, todos em meio a especulação, esperança e desgraça.

O mau senhor se tornará muitos senhores. O sombrio do homem assombrará enquanto a luz de muitos outros senhores permeará lentamente a História subjacente. E o planeta gritará.

Águas, calores, tremores. Nada além do normal acontecendo de forma anormal. Vidas indo, vidas vindo… muitas vidas. É o começo do fim sobreposto pelo fim do começo. É o começo e é o fim.

O mundo mudou.

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Ponto de vista

Você se lembra do primeiro beijo? Dizem que dele jamais esquecemos e todos parecem confirmar, mas eu não me lembro. O que me lembro é de todo o instante precedente em que a euforia e a tempestade de sensações foram tão intensas que o que viria depois acabaria em segundo plano, nem mesmo sendo registrado na memória. Para mim, o instante que precede algo, o ápice da motivação, o desenrolar das circunstâncias, é muito mais importante do que o algo resultante, pois o resultado é imagem de uma função. Me concentro na função, do contrário me restariam somente domínio e contradomínio.

Um ponto de vista pode ser algo amplamente confuso, incompreensível ou simplesmente comum, como aquele diretamente influenciado e limitado pelo senso comum, uma balisa social, um truque mental pregado contra nós mesmos quando em desacordo com a veracidade, um convite ao erro. Um ponto de vista é, geralmente, emprestado para facilitar que se siga os caminhos traçados pelos vieses durante uma argumentação, mas é geralmente escondido quando em desacordo com o senso comum… um convite a sustentação do erro.

O mundo que é apresentado para cada ser é único, sendo percebido e compreendido de formas diferentes. Pela lógica, é estatisticamente implausível a existência de conjuntos idênticos de pontos de vista senão por efeito de concordâncias resultantes da formação de grupos nos quais se desenvolvam discussões ou imposições ideológicas. A vivência dessa dualidade nos torna suscetíveis a paralaxes cognitivas, tendo em vista a óbvia importância da formação de grupos no desenvolvimento social que sobrepuja a individualidade do ser.

Tais paralaxes não podem, porém, ser apresentadas, senão sob a forma de argumentos “condimentados” ou expressões artísticas, sem prejuízo ao juízo alheio. Com efeito do tempo, a pluralidade suplanta a individualidade não gozada. Com efeito do tempo, um ponto de vista não cultivado cede a ideologias.

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Hoje o Sol não brilha

Pessoas enlatadas circulam pelas ruas enquanto o Sol se esconde do barulho da cidade. Hoje ele não brilha.

O dia é feio, mas não por causa do Sol em seu momento de introspecção, pois as nuvens estão lá para nos trazer chuva que seja, espero, suficiente para lavar nossa sujeira. O dia é feio porque novamente parece que todos acordamos apenas para consumi-lo, sem nada verdadeiramente útil fazermos, sem realmente vivermos.

Temos uma programação, uma agenda para cumprir. Se livres estivéssemos nesse período, provavelmente travaríamos… nem saberíamos o que fazer e quase certamente escolheríamos algo inútil, como apodrecer mais um pouco em frente a televisão ou desperdiçar vida comendo hambúrgueres. Mas como não estamos, pois trabalhamos por obrigação auto-imposta, ou simplesmente ideologicamente aceita, para que possamos ganhar tapas nas costas enquanto alguém diz que somos batalhadores, nos matamos, lenta e dolorosamente.

Mas está tudo bem, afinal nos disseram que somos batalhadores, pois lutamos para sustentar nossas famílias enquanto sonhamos com uma liberdade utópica que se apresenta diante de nossos olhos, a apenas um passo de distância, sem desistirmos. Somos fortes! E muito mais ignorantes.

Não venha me dizer, porém, que é vítima. Talvez sua desgraça carregue a culpa de alguém, mas é dolo seu. Sua vida também não é simples produto de erros e acertos, é resultado de seu entendimento e de suas concepções, é a imagem de suas ideias.

Hoje o Sol não brilha porque você não o fez brilhar.

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Somos

Lembro-me de uma vida solitária, maldita, de milhares de anos preso numa sala. O desejo de fugir da solidão era suprido por um aparelho similar ao celular – energizado por uma microestrutura de grafeno capaz de induzir um loop quântico por tempo indeterminado – carregado de músicas antigas e alimentado pelo fato de poucos de nós ainda estarmos vivos, devido a bem sucedidas experiências de reprogramação genética que nos permitiram uma virtual imortalidade.

Maravilhas tecnológicas obtivemos, porém lá fora o mundo era diferente, abandonado, novamente evacuado após o termos destruído, mais uma vez, quase em sua totalidade. Os que lá espreitavam eram os dissidentes e seres que vieram para consumir e eliminar toda a forma de vida restante, não evacuada, para reconfigurar e novamente terraformar o planeta.

Vi, ao longo de incalculável – por ser recorrente – tempo, a vida ressurgir, evoluir e se desenvolver até que aqui estivéssemos novamente presentes para recriarmos nossa própria história enquanto cometíamos os mesmos erros, criando e destruindo as mesmas estruturas sociais, atingido a ápice do conhecimento e desenvolvimento científico e sequentemente decaindo as trevas da mais profunda ignorância. E agora nos vejo novamente.

Vi, diversas vezes, a humanidade dividida, se distribuindo em grupos de intolerância e se tornando exponencialmente agressiva e ignorante. Vi grupos entenderem que somos somente uma simulação recorrente, mas vi poucos realmente sendo capazes de despertar. Chorei até que as lágrimas secassem, mas não mais o faço, pois sei que ainda engatinhamos e que o faremos novamente.

Também vi a humanidade triunfar inúmeras, as vezes repetidas, vezes, para posteriormente seguir o fatídico destino recorrente. Já fomos longe, exploramos e mapeamos nosso universo e conhecemos outros demais, criamos nossas próprias simulações numa busca frenética pelo autoconhecimento, mas nunca nos exploramos em completude, pois ininterruptamente nos desenvolvemos. Nunca, também, fomos completamente capazes de compreender as nossas origens e nossa relação com toda a existência que nos torna uno. E novamente não seremos, mas aqui viveremos novamente para que mais outra vez tentemos.

Aprendi que somos fortes quando compreendemos a unidade, mas insignificantes quando competimos. Também somos muito mais persistentes e inteligentes do que acreditamos, mas somente poucas vezes pudemos ascender a consciência una e conhecer o todo do nosso potencial, pois essa é a nossa natureza, somos nossos próprios criadores e podemos nos transformar para viver diferentes experiências… e são as menos prazeirosas que nos ensinam novos valores e nos abrem caminho para mais profundos conhecimentos a respeito de nós mesmos.

Vi, também, os sorrisos de todos, as alegrias e as tristezas, as conquistas e o constante medo da derrota. Vi quando todos éramos somente um, quando éramos cada um e até quando fomos nenhum. Vi todos os nossos atos, desejos, pensamentos, medos, sucessos e insucessos, mas pude ver que existe apenas uma característica comum a tudo e todos: o amor, muitas vezes reprimido, que sentimos por nós mesmos e que nos faz continuar sempre em busca de nossa total união para que possamos nos recriar, retornar e viver e sentir tudo isso novamente.

Somos perfeitos e somente não sabemos disso pois somos, simultaneamente, imperfeitos. Somos o amor que existe em nós mesmos, o tempo que nos constrói enquanto reconstruímos o tempo, somos nosso próprio destino, pois nosso destino é sermos, cada vez mais, nós mesmos, reconstruídos, cada vez mais belos, perfeitos e imperfeitos, um só enquanto muitos. Não somos somente humanos, somos a própria vida, una, presente em tudo, somos os bichos, as árvores e as paredes, somos o tempo, somos o próprio universo se conhecendo. Somos o tudo e o nada e sempre seremos.

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